A comida, as canetas e os jornalistas que usam IA
Até mesmo aqueles profissionais que estão sendo aniquilados pela inteligência artificial admitem que usam a tecnologia; isso tem volta?
Discos, shows, séries, filmes e livros são alguns dos assuntos que sempre estão na MargeM, newsletter que circula desde 2019. Mas outro assunto quente aqui pra gente é cultura digital. E esta edição, a #288, está especial sobre esse tema tão quente.
A MargeM também se desdobra em posts diários no Instagram e em playlists no Spotify, como esta, dedicada ao essencial grupo PIL e aos seus filhos do pós-punk. E o PIL faz show em São Paulo em 8 de abril.
Boa leitura!
O papo de que a economia em torno da inteligência artificial virou uma bolha e que ela está prestes a estourar, já circula há algum tempo.
E tem outra questão que tangencia essa discussão. “Será que as Big Techs estão vivendo o seu momento indústria do cigarro”? Os indícios são as recentes derrotas de Meta e Google na justiça.
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Não quer dizer que a IA esteja caindo em desuso. Pelo contrário. Até mesmo os profissionais que mais são/serão prejudicados pela expansão dessa tecnologia (os jornalistas) já admitem que usam, sim, ferramentas de IA. Se não na escrita do texto em si, mas em diversas fases da produção. Pelo menos é o que dizem a Taylor Lorenz, o Casey Newton e outros.
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E um detalhe bem curioso e significativo da história acima. Dois dos entrevistados são os jornalistas/analistas Jasmine Sun e Kevin Roose. Roose diz na matéria que está usando o Claude como uma espécie de “super-editor”.
Aí a Jasmine Sun foi ao Twitter e contou que ela era uma das editoras humanas que estavam trabalhando pro Kevin Roose, até que ele a trocou por uma IA.
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Usar IA de forma ética, responsável e criativa em trabalhos de audiovisual? É o que desejam Trey Parker e Matt Stone (a dupla que deu ao mundo o “South Park”) com a start-up Deep Voodoo.
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Para finalizar o tema: o New York Times dispensou um crítico que usou IA para escrever trechos de uma análise sobre um livro recém-publicado.
“Meu namorado doce e inteligente foi sugado pela manosfera”.
A matéria acima foi feita a partir de depoimentos de algumas mulheres que viram seus parceiros serem “capturados” pelos red pills. O tema está em alta e ganhou o bom documentário “Por Dentro da Machosfera”.
Andy Warhol, Richard Prince, Sherrie Levine e Elaine Sturtevant, entre tantos outros, estão entre os artistas que discutem a noção de originalidade e autenticidade na arte.
Mas este artigo, “A Questão da Influência na Bienal do Whitney”, provoca:
“É verdade que, quase desde o início, a arte pós-moderna desafiou a noção de originalidade, ou, mais especificamente, o peso da originalidade, muitas vezes com grande alegria, engenho e não sem um certo temor. (...) Mas, quando se começa a acreditar que a produção (ou a reprodução) por si só justifica o trabalho, entra-se em um terreno perigoso, especialmente quando há pouco reconhecimento dos artistas que abriram o caminho para esse tipo de produção”.
“6 taças de vinho, 3 ovos cozidos.”
Esta foi a base da alimentação de uma jornalista às vésperas da cerimônia do Oscar. A dieta foi criada no início dos anos 1960 por Helen Gurley Brown (ex-editora da “Cosmopolitan”).
O plano diário dessa dieta é:
Café da manhã: 1 ovo cozido, 1 taça de vinho branco (seco, de preferência Chablis), café preto;
Almoço: 2 ovos cozidos (de preferência, ou pochê se necessário), 2 taças de vinho branco, café preto;
Jantar: 150 g de bife grelhado com pimenta-do-reino e suco de limão, o restante do vinho branco (permitida uma garrafa por dia), café preto.
Nutricionistas, claro, não recomendam essa dieta.
Até um tempo atrás, havia muitos restaurantes que serviam quantidades (bem) generosas de comida. O cardápio anunciava: “Porção para uma pessoa”. Aí o garçom corrigia: “Essa dá pra duas pessoas que comem bem ou três que comem pouco”.
Ainda há alguns estabelecimentos que continuam com essa prática. Mas estão em extinção. Porque o mundo mudou e os restaurantes mudaram. E, parece, vão mudar ainda mais.
O assunto está quente. A Gama desta semana traz o especial “A comida virou vilã?”
Além de uma entrevista com o badalado argentino Francis Mallmann, a revista digital discute, em uma reportagem, como as canetas emagrecedoras estão acelerando um comportamento que, já há alguns anos, enxerga a comida quase como uma inimiga do corpo.
“Uso de ‘canetas emagrecedoras’ coloca setor num impasse, levando bares e restaurantes a oferecer pratos menores e até rodízio feito para quem come pouco”, diz a matéria, que conta o exemplo do Nou, restaurante paulistano que decidiu colocar no cardápio a nova oferta de porções reduzidas de comida, que já representa 25% do total de pedidos.
A Folha também foi atrás desse efeito colateral gerado pelos novos medicamentos. De refeição em pó a saladas em redes fast food, a reportagem elenca as mudanças no mercado geradas pelos GLP-1.
Ainda nesse tema, vale ler o relato (em inglês) deste jornalista que tomou um desses medicamentos durante nove meses: “O que o Ozempic me ensinou sobre estilo e autoestima”.
O jornalista do relato acima mede 1,78 m e estava com 132 quilos. Ele conta:
“Emagrecer com medicamentos GLP-1 é diferente de fazer isso do jeito tradicional em quase todos os aspectos. Uma das poucas semelhanças é que a experiência passa a tomar conta de tudo, como uma carreira ou um hobby querido. Isso nunca fica tão claro quanto no início e no fim de cada dia, quando a balança no banheiro me diz como as coisas estão indo. No final de junho do ano passado, as coisas iam bem. Eu havia perdido 14 quilos em menos de três meses.”
E:
“Uma cintura cada vez mais fina significava que eu precisava comprar roupas menores a cada poucos meses, e mesmo sem um peso-alvo em mente, eu sabia que ainda não havia chegado lá. Então gastar dinheiro em um guarda-roupa completamente novo teria que esperar. É isso que meu eu mais magro tem em comum com meu eu mais gordo: uma percepção aguçada da impermanência do meu próprio corpo, que já foi auto-ilusória, agora é aspiracional, mas em ambos os casos totalmente subjugada à tirania do pensamento de ‘work in progress’.”
As imagens desta MargeM são da expo “Zumví Arquivo Afro Fotográfico”, em cartaz no IMS de São Paulo. A mostra apresenta 400 imagens do Zumvi, um arquivo criado em 1990 em Salvador que se dedica a valorizar fotografias que retratam cenas e movimentos sociais protagonizados por pessoas negras.
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