A falta de ironia na TV; e a tirania da positividade

O arco das séries de TV: da ironia à sinceridade. A tirania da positividade. Ministério Público fecha sites que inflavam números de ouvintes em streaming. E mais, nesta MargeM 161.


Um dos grandes textos que li nesta semana: Como a TV foi de David Brent a Ted Lasso?

David Brent é o personagem de Ricky Gervais na versão britânica de The Office. Gerente de um escritório, Brent é um sujeito meio boçal, que adora fazer piadas constrangedoras com teor homofóbico, racista e machista  –mas ele não se considera nem homofóbico nem racista nem machista. A série é engraçada justamente por expor essa situação.

Ted Lasso é o personagem de Jason Sudeikis na série homônima. É um cara gente boa, gentil, bonzinho. A série está na segunda temporada e seu sucesso está justamente na capacidade de criar empatia com o espectador por meio da ingenuidade e da sinceridade do personagem.

Puxando por esses dois exemplos, o autor do artigo argumenta que, nos últimos 20 anos, as séries de TV saíram da "era da ironia" para a "era da sinceridade".

"Por 'ironia' não quero dizer a relação popular do termo com cinismo ou sarcasmo. Refiro-me a um modo de narrativa irônico, em que o que um espetáculo 'pensa' é diferente do que o seu protagonista faz. Duas décadas atrás, as histórias mais distintas da TV eram definidas por um tom de distanciamento sombrio ou amargo. Hoje, é mais provável que sejam sérias e diretas."

O autor contextualiza The Office com outras séries comandadas por anti-heróis, como Sopranos e Breaking Bad –e como muitos fãs dessas séries não compreendiam os defeitos de caráter daqueles personagens e, por isso, os idolatravam.

Mas ele evita fazer julgamento de valor. "Nada disso quer dizer que as séries de TV emotivas e sinceras sejam piores, ou mais simples ou mais burras do que os seus equivalentes mais irônicos."

Será?



Isaiah Rashad - Wat U Sed
O talentoso Rashad lançou disco há alguns anos e meio que sumiu (problemas com álcool e grana). Volta agora com álbum pelo selo Top Dawg (o mesmo de Kendrick Lamar e SZA). Nesta faixa, que tem a participação da ótima nova rapper Doechii (bem popular no TikTok), Rashad solta rimas em cima de beats que parecem feitos de veludo.


Estamos no meio de uma tirania da positividade?

A psicoterapeuta Esther Perel deu uma longa entrevista à GQ EUA a respeito de ansiedade, pressão social, influência da pandemia nos relacionamentos. E sobre o que ela chama de "tirania da positividade". A exigência de estarmos (e aparentarmos estar) sempre felizes.

"A tirania da positividade é um fardo. A felicidade é um resultado, não uma missão, porque sendo uma missão faz com que você constantemente se pergunte: 'Estou feliz? Estou feliz o suficiente? Poderia ser mais feliz? Devo deixar este relacionamento? Estou feliz, mas talvez eu poderia ser mais feliz em outro lugar'. Então se torna uma enorme incerteza, uma enorme dúvida sobre si mesma."

"A felicidade chega em um momento, quando eu termino uma entrevista com você, ou você comigo, e talvez digamos: 'Isso foi muito bom. Estou feliz. Estou satisfeita'. É um momento. Não é: 'Estou feliz em minha vida. Sou uma pessoa feliz'. Sou uma pessoa com várias emoções."
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E como deve ser o pós-pandemia? Para muitos, com fobias sociais por toda parte. "Ansiedade, TOC e estresse pós-traumático são algumas das preocupações de especialistas."


Finalmente: O Ministério Público de São Paulo fechou dezenas de sites que fraudavam números de streaming de música. Esses sites “vendem 'plays' artificiais para ajudar músicos a inflar cifras e fingir sucesso”.


Belo ensaio sobre como atletas (e celebridades) estão lidando com as redes sociais sem filtro:

"A maioria dos atletas em Tóquio é como nós: são pessoas que olham para os seus telefones. E que, embora administrar a enorme pressão (nas redes sociais) seja provavelmente apenas uma característica do que significa ser um grande atleta, ou qualquer tipo de figura pública hoje, essa distância entre o silêncio total e o barulho infinito –e os problemas de viver nesses estados, e como eles podem estar vinculados– parece mostrar uma dinâmica de informações com a qual estaremos lidando na década de 2020."


Eu tenho sangue em minhas mãos.

Reportagem pesada do BuzzFeed sobre a Sophie Zhang, uma ex-cientista de dados do Facebook. Em um documento enorme, Zhang afirma que o Facebook ignorou denúncias de que perfis falsos na rede estavam agindo para desestabilizar eleições em diversos países do mundo. 

"Em países como Índia, Ucrânia, Espanha, Brasil, Bolívia e Equador, ela encontrou evidências de campanhas coordenadas de vários tamanhos para impulsionar ou impedir candidatos ou resultados políticos, embora nem sempre conseguira chegar a uma conclusão de quem estava por trás deles."


Skepta - Nirvana (com J Balvin)
Um dos grandes nomes do grime, Skepta aparece aqui rimando com a ajuda de Balvin e um reggaeton suave.


Coisas legais por aí

I Know I'm Funny Haha. Faye Webster tem 23 anos e canta a respeito de desilusões, incertezas e relacionamentos em letras espertas, como "I don't know what to do/ Got two friends that I could see/ But they got two jobs and a baby" (em Better Distractions) e "I saw you last night in my dream/ That's still the closest you and I have been/ That's kind of sad, don't you think? I think so" (A Dream with a Baseball Player). Meio Courtney Barnett, meio Elliott Smith.
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Hacks. Excelente série que coloca lado a lado uma comediante boomer que faz há anos um stand-up show decadente em Las Vegas com uma comediante/roteirista Gen Z que foi cancelada por ter feito uma piada grosseira nas redes sociais. Tem, de longe, alguns dos melhores diálogos recentes da TV. Tipo:
Ava Daniels (a jovem comediante/roteirista): "A minha vida está praticamente arruinada".
Deborah Vance (a comediante veterana): "Ah, a sua vida está arruinada. Por favor, isso parece uma terça-feira qualquer pra mim. Fora que você é apenas uma roteirista. Ninguém se importa".
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Lost: Um Diagnóstico. Muita gente detesta Lost porque, entre outras coisas, o final da série teria sido decepcionante, inconclusivo, preguiçoso. Neste vídeo, Thiago Guimarães faz uma reavaliação e uma defesa da série, que tinha, sim, algumas ideias brilhantes. (Eu até que curti Lost, mas para mim a grande série de Damon Lindelof é The Leftovers.)



O Kwai, grande concorrente do TikTok na China, está entrando forte no Brasil. "Com 34,7 milhões de usuários no país, o app posta em uma campanha agressiva de divulgação e na fidelização de influenciadores."
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O Mark Ronson lançou hoje na Apple+ a série Watch the Sound, na qual ele mostra como a tecnologia vem mudando as técnicas de gravação. Cada episódio tem convidados de peso: Paul McCartney, Charli XCX, AD-Rock e Mike D (Beastie Boys), Questlove e mais. Bem, ao final de cada ep, ele e os convidados criam uma música. A primeira é esta aqui, com McCartney e Gary Numan.
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Muitos rappers estão investindo em criptomoedas. É uma bolha?
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A tradicionalíssima revista The Nation conta como é a instalação Party/After-Party, do produtor/DJ Carl Craig no museu Dia Beacon, em Nova York.
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Uma lista com livros que refletem sobre racismo, feminismo, meio ambiente e o futuro.
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Incrível: como um som influencia a palavra que se ouve (em vídeo).
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Tem um app que vai pagar até US$ 250 por dia para quem usar o celular para transmitir ao vivo crimes em Nova York. (É assustador? É, mas, de certa forma, é a mesma lógica de outros apps/redes sociais: pagar aos usuários pelo conteúdo que eles produzirem.)
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Cinco líderes religiosos falam a respeito dos conflitos entre a fé e a ciência.
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Como a pandemia está transformando a arquitetura.
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O dia em que a "boa internet" morreu. "Por um pequeno período de tempo, estar online era uma mistura emocionante de descoberta, colaboração, criatividade e potencial caótico. Então o Google Reader desapareceu."
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Estamos assistindo à queda do Clubhouse?
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As Olimpíadas em tatoos e os melhores TikToks de Tóquio.