Estamos numa "recessão da atenção"; e o MC Hariel com orquestra
E como os jabás na indústria da música estão ficando mais sofisticados, com a ajuda de influenciadores
Esta é a MargeM, uma newsletter que, desde 2019, analisa e faz curadoria do que é relevante na música, no entretenimento e na cultura digital.
Nesta edição, a #297, você vai encontrar:
- A viralização na música pode ser falsa;
- Os influenciadores e a “recessão da atenção”;
- MC Hariel fala sobre funk e show com orquestra.
E acompanhe a MargeM no Instagram e no Spotify. Boa leitura!
O jabá está mais vivo do que nunca.
Expressão que ficou conhecida a partir das décadas de 70/80 para dar nome à grana que gravadoras colocavam nas mãos de emissoras de rádio para tocar determinadas músicas, o jabá neste século 21 virou, também, uma picaretagem um pouco mais sofisticada.
O G1 soltou uma excelente matéria sobre uma prática que está disseminada entre artistas, agências de marketing musical e influenciadores.
Resumindo: a serviço de artistas e/ou gravadoras, as agências contratam influenciadores para que eles criem vídeos curtos falando bem desses artistas ou de suas músicas, mas de um jeito que a coisa pareça “orgânica”, “autêntica”, “viral”.
Um trecho da reportagem, com aspas de um executivo de uma agência que tem entre seus clientes Anitta, Ludmilla e Filipe Ret:
“‘Hoje, é extremamente comum que conteúdos pareçam espontâneos no feed ou nos Reels quando, na verdade, fazem parte de uma estratégia de divulgação. Isso inclui desde a criação de tendências até a ampliação do alcance de uma música por meio de criadores de conteúdo’, conta Victor David, fundador da Rap Marketing. Em outras palavras, até vídeo de dancinha pode ser jabá.”
A matéria do G1 explica bem como o negócio funciona. Há as agências que estimulam clipagens de vídeos (e aí os influenciadores recebem se o vídeo tiver boa performance nas redes) e há os contratos diretos para que influenciadores falem bem de um disco ou música.
É exatamente igual ao que acontece lá fora. Semanas atrás, no Instagram da MargeM, mostramos, aqui e aqui, como bandas indies estão usando essa estratégia para fingir que estão viralizando organicamente.
O Guardian publicou um artigo em que diz: “A música indie foi invadida por fake fãs e campanhas virais cínicas”.
Dias atrás, a NPR, a emissora pública dos EUA, publicou esta matéria: “Influenciadores musicais estão sendo pagos para promover músicas – e eles não estão contando isso a você”.
Que gravadoras, artistas da música e influenciadores tenham relações comerciais é do jogo. O que não deveria ser do jogo é fazer publicidade nas redes sem informar que tal ação é publicidade. E isso é o que mais rola por aí: em conteúdos de música, de séries, de gastronomia, de viagem etc.
O André Barcinski gravou recentemente um vídeo em que conta um caso que ocorreu com ele. Para mostrar “o tipo de relação incestuosa que existe hoje entre gravadoras e estúdios de cinema com a mídia especializada em cinema e música”.
Duas coisas estão pegando no mercado de influenciadores e criadores de conteúdo:
Não está fácil para ninguém;
O influencer pode falar sobre qualquer coisa nas redes, menos admitir que está sofrendo.
O primeiro ponto está nesta matéria, que argumenta que o mercado até está em crescimento, mas com a quantidade absurda de gente postando conteúdos sobre tudo, estamos em uma “recessão de atenção”. Ficou muito mais difícil conquistar e manter relevância. As empresas passaram a selecionar criadores com muito mais rigor. As campanhas exigem taxas de engajamento maiores, métricas ambiciosas e um controle quase extremo sobre a forma como os produtos aparecem. Grandes audiências, sozinhas, já não impressionam tanto quanto a capacidade de gerar cliques e vendas.
O segundo ponto está neste artigo: “O último tabu das redes sociais: Está tudo bem ser qualquer tipo de pessoa online, exceto alguém que está sofrendo”. O texto é uma adaptação de um trecho do livro “A História da Sua Vida: Como as Redes Sociais Moldam a Maneira como Vivenciamos Tudo”.
Hoje, o grande tabu das redes sociais é admitir que se está sem dinheiro, sem perspectivas ou sem o controle da própria vida. É uma lógica que se baseia na transformação das redes sociais: de um local para dividir momentos pessoais a um espaço de gestão de uma marca pessoal.
É aquela coisa: pessoas viraram empresas/marcas. E uma marca nunca pode admitir que está mal, deprimida, sem grana. Até a vida e a rotina de alguém precisa ser otimizada para exibir uma ideia de produtividade, beleza, competência, crescimento na carreira.
“A manutenção da marca pessoal tornou-se uma prática ainda mais dinâmica e trabalhosa quando, em 2006, o Facebook introduziu as atualizações de status em tempo real. Surgiu então uma forma totalmente nova de ajustar continuamente nossas ‘marcas’, agora com o recurso adicional do feedback da audiência por meio de curtidas e comentários. Foi a primeira vez que a maioria de nós fez algo que hoje se tornou quase uma segunda natureza: realizar uma pesquisa de mercado quase contínua sobre a própria personalidade.”
→ A “Atlantic” diz que os influenciadores já formam uma indústria estabelecida, mas que está “desgastada” com o público. As pessoas estão cansadas de jeito-influencer-de-ser.
→ Já a “Fast Company” trata do tema influência de forma bem direta: “A bolha dos influenciadores está finalmente estourando”. (Basicamente, o autor afirma que o modelo tradicional do influenciador, alguém que usa a sua imagem para promover produtos, está sendo substituído pelo modelo creator, que tem “autoridade” e identidade editorial próprias.)
MC Hariel é um dos mais interessantes e originais nomes do funk (e do trap) brasileiro. Além da habilidade vocal, tem a manha de escrever letras que passam sem solavancos tanto sobre o hedonismo festeiro como sobre questões sociais.
Ele vai fazer um show em formato inédito no sábado (dia 8/8): uma apresentação funk-sinfônica ao lado de uma orquestra com 59 músicos. É parte do projeto Red Bull Symphonic, que já recebeu gente como o Metro Boomin. Esta versão brasileira tem direção musical de Nave Beatz, regência do maestro Xuxa Levy e direção criativa de Drica Lara. Será no auditório Simón Bolívar, no Memorial da América Latina, em São Paulo, e os ingressos já estão esgotados.
Eu conversei com Hariel, Xuxa Levy e Drica Lara. Abaixo, alguns trechos:
“O que o Metro Boomin fez me pegou bem. Ele conseguiu encaixar direitinho a orquestra com os loops de trap.” (MC Hariel)
“Há todo um preconceito contra o funk, do mais comum ao mais absurdo. É uma coisa que está enraizada. A gente vai nos grandes festivais, em grandes shows, em lugares que eram tidos como inalcançáveis, mas são poucos os que nos tratam com um respeito genuíno. Há várias camadas de preconceito. Para o artista, é aquele olhar: ‘Como é que você chegou até aqui?’. É uma coisa velada. Como o cara racista que não é racista em público, mas ensina os filhos a serem racistas.” (MC Hariel)
“(Lá atrás) Quando fazíamos o (funk) ostentação, era mesmo para incomodar, para conquistar atenção. A gente não queria simplesmente ostentar, a gente queria vencer na vida, conquistar a liberdade de comer em qualquer restaurante.” (MC Hariel)
“O processo de criação para este projeto foi bem delicado. É meio perigoso parecer que estamos tentando higienizar uma parada, o funk, que não precisa de legitimação. Tivemos a preocupação de não fazer algo careta ou tradicional demais.” (Xuxa Levy)
“Visualmente, colocamos o DJ e o maestro numa mesma linha, em uma hierarquia horizontal. E é algo bem minimalista. Queremos criar uma comunhão entre público, MC e orquestra.” (Drica Lara)
“Nos Estados Unidos, o vinil ultrapassou US$ 1 bilhão em faturamento anual pela primeira vez desde os anos 1980.”
Ainda é um nicho e está longe de arranhar o mercado conquistado pelas plataformas de streaming, mas os discos de vinil (e até os CDs e fitas cassete) estão recuperando terreno entre jovens, colecionadores e gente que está cansada de depender apenas dos algoritmos.
As imagens desta MargeM são da fotógrafa francesa de ascendência vietnamita Nhu Xuan Hua e estão na expo "Of Walking on Fire", em exibição na galeria Autograph, em Londres.
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