O retorno dos shows; na internet, tudo é mercadoria

Esta é a MargeM 152. Três produtores/empresários falam a respeito de como será a volta de shows e festivais. My Blood Valentine. Tudo virou mercadoria na internet. A produtividade tóxica. E mais.


Se aqui no Brasil o assunto parece uma miragem, algo ainda distante, intangível, em muitos países do mundo o retorno de shows e festivais de música é (ao que tudo indica) uma realidade.

O Primavera Sound, em Barcelona, anunciou que volta em 2022, no que será a "edição mais ambiciosa", segundo o El País. Já o Ultra, que nos últimos anos vivia às turras com moradores de Miami, vai retornar em 2022 à cidade com o apoio desses mesmos moradores. São apenas dois de vários exemplos.

Apesar de o momento brasileiro ser terrivelmente outro, o retorno dos eventos presenciais no exterior faz com que os profissionais do país já se movimentem para traçar planos para quando esse momento chegar por aqui. Alguns estão bem otimistas, outros, com um pés atrás.

Conversei com três produtores/empresários da música para saber como eles imaginam que será essa volta dos shows e festivais.


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- O público vai voltar em massa para shows e festivais de música?
Paola Wescher, empresária na indústria musical, co-fundadora da Popload e criadora do festival Grls!: "Sou meio conservadora. Estou em vários grupos de promotores e a maioria acha que vai voltar estourando. Eu tendo a achar que no início, sim, vai ter uma procura grande, mas logo em seguida haverá problemas: as pessoas não terão dinheiro para acompanhar a quantidade de conteúdo que ficou parada por quase dois anos. Teremos muitos shows e as pessoas não estarão com muito dinheiro. E me parece que os promotores não estão levando isso em consideração. Os valores cobrados antes... não sei se o público vai acompanhar. Vai rolar um boom, mas será ilusório, efêmero".

Guilherme Marconi, sócio-fundador do Coala Festival: "Tenho certeza que sim! A reunião em volta da música é mágica, necessária, nos dá sentido. Já temos um bom termômetro lá fora, em que na Austrália não há mais casos de covid e o mercado de entretenimento está totalmente normalizado, com lotação máxima. Na Europa e nos EUA, que estão em um momento de testes, o público tem comparecido em peso e os resultados têm sido positivos até agora".

Evandro Fióti, empresário, CEO da Laboratório Fantasma e músico: "Acredito que sim, porém qual público? Acredito que, sobretudo, a elite.
O retrocesso social e econômico que toma conta do nosso país pelo descaso da maioria dos nossos líderes políticos, principalmente do Presidente da República, e a fragilidade das instituições brasileiras na nossa  “demo-cracia” eugenista fará com que os shows voltem, sim, mas a maioria do público que vai ter a possibilidade de curtir espetáculos ao vivo será das camadas mais altas da sociedade.
Sem investimento decente em políticas públicas que fortaleçam a retomada do nosso setor, vamos assistir a festivais grandes e importantes, mas compostos majoritariamente por plateias majoritariamente formada por pessoas brancas, gozando do privilégio de terem sido vacinadas, terem recursos e saúde financeira para comparecer a um espetáculo ao vivo, enquanto mais da metade da população do País sofre com a fome e com as sequelas deixadas pela pandemia e pelo genocídio ainda em curso.
Sem consciência de classe, a retomada facilmente beneficiará a monocultura, sobretudo do sertanejo, que ainda tem determinada relevância e, proporcionalmente, é o gênero mais promovido e consumido nas rádios e TVs do país, enquanto muitos segmentos, como o independente e as pequenas casas de shows, vão ter um desafio enorme para conseguirem se levantar com o país em uma grave depressão econômica.
Esse ecossistema desigual é o que me preocupa. Foi ele que renovou a indústria da música nos últimos 15 anos, trazendo um pouco mais de diversidade cultural e rítmica para o grande holofote do entretenimento, mas sem políticas públicas decentes para o seu restabelecimento, será difícil voltar ao nível que estávamos antes de a pandemia chegar no país".

- Os artistas vão incorporar algo do virtual na nova realidade? Os shows vão voltar a ser como eram antes ou terão também recursos digitais?
Paola Wescher: "O lance do virtual já é uma realidade. Mas a maneira como vai ser incorporado nos shows depende de cada artista, do jeito que eles trabalham. Acredito no formato híbrido. Se fosse empresária de um artista, sugeriria para que investisse em formato não apenas para quem está assistindo, mas também algo virtual, seja uma transmissão, um game, um NFT. Mas depende muito do tamanho da equipe, do que o artista quer. Cada artista tem um jeito próprio.
Das experiências que vi, no Brasil gostei do RecBeat, que apresentou um festival bonito esteticamente, que ocupou alguns espaços de São Paulo, como o Teatro Municipal, o Minhocão, o topo de um prédio, e rolaram shows lindos. Foi algo muito bem explorado por eles.
Há muito caminho pela frente. A música sempre ficou muito atrasada em relação a isso, precisou vir uma pandemia para a gente se mexer. Então acho que o virtual veio pra ficar, sim".

Guilherme Marconi: "Definitivamente entramos num segundo round do entretenimento, em que os conteúdos mais relevantes vão acontecer de forma híbrida, aliando experiência presencial e digital. No ano passado, tivemos uma experiência 100% digital com o Coala Festival, quando fizemos o Coala VRTL. Aprendemos muita coisa que vamos levar para o Coala Festival, algo que vai tornar a experiência do público ainda mais completa dentro e fora da arena.
O mais interessante é a voracidade com que as pessoas estão consumindo os conteúdos presenciais que são liberados! Eu faço parte da ABRAPE (Associação Brasileira dos Promotores de Eventos) e da comissão que está acompanhando eventos no exterior para entender como fazer uma retomada saudável e segura por aqui. Tenho rodado bastante e acredito que de todas as referências, devemos nos inspirar na retomada americana, que está voltando com eventos para pessoas testadas com distanciamento e máscara e pessoas vacinadas sem máscara".

Evandro Fióti: "Os hábitos de consumo e comportamento que adquirimos diante desse período pandêmico vão se manter. Acredito que veremos mais produção e consumo de eventos online e live streaming. Até porque, em um País com dimensão continental como o Brasil, com uma das moedas que mais se desvalorizou no último ano,  haverá diversos limites para circulação.
Nesse sentido, abre-se um espaço grande para o fortalecimento da cultura e do entretenimento no segmento digital, pois reduz o custo e você consegue ter uma escala maior de pessoas acompanhando o seu conteúdo. Mesmo antes da pandemia, já era difícil fazer uma circulação nacional no Brasil. As passagens aéreas, a logística e a alimentação para chegar aos quatro cantos do nosso país já eram uma grande barreira. Sem distribuição de renda e com a retração da economia, o sudeste tende a continuar concentrando os grandes eventos e as circulações. Torço para que as comunidades locais –sobretudo no norte e no nordeste– fortaleçam os seus artistas e consigam continuar resistindo e influenciando o país todo.
Acredito também que as casas de shows que conseguirem resistir possivelmente vão transmitir seus espetáculos e fazer com que qualquer pessoa no mundo possa se sentir próxima dos artistas que estarão nos palcos. Essa possibilidade me encanta bastante".



Curtis Harding - Hopeful
Espetacular música que captura bem este 2021, mas com uma letra cheia de esperança: "Don’t fret cause it ain’t over yet/ but by the time it is your cries will turn into cheers/ no fears just hold on tight/ cause the darkness will be over by the end of the fight".


Mente e coração do My Blood Valentine, o guitarrista Kevin Shields está dando uma série de entrevistas para promover a entrada das músicas da banda nas plataformas de streaming.

À Folha, a respeito do espetacular disco Loveless, ele diz que o enxerga "um pouco diferente a cada vez. O disco muda o tempo todo para mim. Sabe com o que se parece? Todos acordam de manhã e olham para as suas caras no espelho, e ela muda a cada vez, não é? Eu pareço muito cansado, eu pareço bem, eu pareço mal. Todo mundo está sempre um pouco surpreso e um pouco preocupado".

Ao Guardian, afirma: "Queríamos soar como uma banda matando as suas músicas".


"Tudo está se tornando conteúdo fechado por paywall –até você."
Esse é o título de artigo da Wired que discute como muito do que é colocado na internet está se fechando. A circulação de conteúdo está deixando de ser livre para ser restringida apenas a quem se puder pagar por ele. (Ironia: até esse artigo está sob o paywall da Wired, que permite que alguém acesse gratuitamente apenas quatro artigos por mês.)

"A internet transformou tudo em uma mercadoria –agora construída sobre o que o economista Jeremy Rifkin chama de 'relações de acesso' em que 'praticamente todo o nosso tempo é mercantilizado' e 'comunicações, troca de experiências e comércio [são] indistinguíveis'."


Autora de Uncanny Valley, em que escreve sobre a experiência trabalhando em empresas do Vale do Silício, Anna Wiener diz em entrevista: “O conto da meritocracia na indústria tecnológica é uma balela”.


Em 50 anos de carreira, Albert Watson fotografou quase todo mundo, de Hitchcock a Gigi Hadid, de Mick Jagger (em um carro ao lado de um leopardo) a Divine. Ele está lançando o livro Creating Photographs.


Com a pandemia, surgiu uma série de problemas e questões como "fadiga do Zoom" e burnout. Mais uma: produtividade tóxica
"É essencialmente um desejo doentio de ser produtivo o tempo todo, a todo custo. É a necessidade de ir 'além' no trabalho ou em casa, mesmo quando isso não é esperado de você. (...) Depois de concluir tecnicamente um projeto no trabalho, você pode se sentir culpado por não ter feito mais."

A i-D também tocou no assunto. Entrevistou uma pesquisadora que afirma: "Focar na atitude individual é olhar para o lugar errado. Se há danos decorrentes dessa maneira de nos relacionarmos conosco, uns com os outros e com o tempo, e eu acho que há, então precisamos levá-los mais a sério do que esperar que possamos mandá-los embora apenas com o pensamento. Deveríamos realmente estar perguntando de onde vêm essas atitudes".

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A Jill Lepore fez uma espécie de perfil do burnout. A palavra, segundo a autora, apareceu pela primeira vez em 1973. "Nos anos oitenta, todo mundo estava (burned out) esgotado", escreve. "Burnout é uma metáfora disfarçada de diagnóstico."

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Seja por causa do término de uma relação, de uma doença ou de uma demissão, mudar um comportamento ou um hábito é algo difícil, que exige disciplina. Neste artigo, uma pesquisadora defende a prática da ioga mental.


"Anthony deixou-se cair numa cadeira, a sua mente estava cansada –cansada de nada, cansada de tudo, com o peso do mundo que ele nunca escolhera suportar."
F. Scott Fitzgerald, em Os Belos e Malditos.


Coisas legais por aí

1971: O ano em que a música mudou tudo. Série da Apple TV que mostra como aquele início dos anos 70 foi importante para a música: saía de cena o sonho hippie e entrava o futurismo de Sly Stone, o funk politizado de James Brown, o glam de Marc Bolan, o folk de Joni Mitchell e muito mais. São oito ótimos episódios, dirigidos por Asif Kapadia (o mesmo dos docs Amy e Senna).
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Hit Parade. Ótima série ficcional, meio drama meio comédia, em oito episódios. Por meio da tentativa de um compositor de emplacar uma carreira na música, Hit Parade mostra bem os bastidores da indústria fonográfica.
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E Amanhã... O Mundo Todo. Filme alemão sobre uma jovem advogada que se envolve com um grupo anti-fascista. Ela então lida com os dilemas e as contradições entre os integrantes do grupo.
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Tempos de Crise. Série belga-suíça sobre uma mulher que passa a comandar um banco suíço após o irmão ser hospitalizado e entrar em coma. O roteiro divide-se entre a busca da mulher para entender o que houve com o irmão e a caça dos EUA para pegar banqueiros que fizeram operações sujas.
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Selection: Roman Flugel. O produtor e DJ alemão seleciona faixas antigas e outras nem tanto, que vão da disco ao synth-pop ao techno.



Os Amantes (Jaloo e Strobo) - Bye!
Ao lado da dupla Strobo, Jaloo faz uma bela faixa inspirada no ghosting.


Saiu a nova playlist aqui da MargeM. São 11 faixas, 44 minutos.


O Febem é dos mais talentosos jovens rappers brasileiros (até já apareceu aqui na MargeM). Pois ele aparece em uma bela reportagem sobre o novo rap brasileiro no site Remezcla. Sobre o disco, feito com a produção do CESRV, o artigo diz que é "uma tentativa feroz de levar o baile funk para o futuro".
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Cinco sambas históricos do Nelson Sargento.
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Bella Kahun, Bixarte: cinco artistas mulheres para conhecer o novo Nordeste.
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Na televisão, o prazer que temos em ver gente sofrer.
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Ainda não comecei a ver Mare of Easttown, mas o El País define a série com a Kate Winslet como "o mito da mártir que fica feia e descuidada para nos salvar". "Embora a série ‘masculinize’ sua detetive para mostrar sua dureza como investigadora, também se apoia no tema recorrente da mulher que se desapega de sua imagem pessoal em busca da verdade".
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De segunda a sexta: como são os dias da Zerina Akers, stylist da Beyoncé.
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Como está o Clubhouse? Bem, a rede social acaba de contratar a Kelly Stoetzel, que por 17 anos comandou os Ted Talks. Seu papel será recrutar gente como "autores, cientistas, acadêmicos e outros criativos para usar as salas de áudio interativas do aplicativo".
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Criaram um novo app de compartilhamento de fotos. Mas o Poparazzi tem uma característica única: não aceita selfies.
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“Meu pulo do gato foi não ser só um youtuber, mas criar estilo de vida”, diz Luccas Neto, que expande negócios com publicidade guiada por departamento jurídico.
”Hoje, a remuneração do YouTube é cerca de 15% do meu faturamento.”
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Em vídeo: a brasileira que descobriu o passado nazista do próprio avô.
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O Louvre tem 228 anos. Laurence des Cars será a primeira mulher a ocupar o cargo de presidente do museu.
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Excelente entrevista com o Tony Hawk, um dos maiores nomes da história do skate.
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Como tirar uma ideia do papel –em cinco dicas.
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O gato não queria aparecer na foto, mas aí o cachorro foi lá e obrigou o bicho a ficar ao lado dos amigos.
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Uma lista com mapas e gráficos esquisitos. (Tipo: uma viagem de trem entre Portugal e Vietnã, que leva 250 horas.)
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