Os filmes, as séries e os discos da semana
Um já clássico do cinema que radiografa os excessos e as afetações dos anos 80; um álbum gótico-barroco-industrial-orquestrado; uma série de tensão com trilha espetacular
Esta é a MargeM newsletter #292.
Vem um pouco diferentes, com dicas de filmes, séries e livros que a gente curtiu nos últimos dias ou semanas.
Vamos tentar disparar a newsletter com frequência ainda maior, talvez divivindo os temas (cultura pop e entretenimento) em edições diferentes? Ou continua tudo junto?
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Boa leitura!
Um filme para ver já
→ “Psicopata Americano” (disponível na Netflix)
“A nossa pasta desta noite é ravioli de lula com molho de capim-limão, com profiteroles de queijo de cabra e também temos uma salada Caesar de rúcula. Entre os principais, temos torta de peixe-espada com geleia de cebola.”
De um garçom em um restaurante frequentado por homens engravatados com gel no cabelo e mulheres que lembram a Ivana Trump saem as primeiras frases deste filme que captura como poucos os excessos e as afetações de uma pequena, mas vaidosamente barulhenta, parcela da população dos EUA nos anos 80: os yuppies que trabalhavam no mercado financeiro principalmente em cidades como Nova York, Los Angeles e Chicago.
Baseado num espetacular livro (publicado em 1991) de Bret Easton Ellis (escritor que, antes, já havia radiografado com especial humor e cinismo a opacidade existencial dos jovens americanos dos anos 80 em “Abaixo de Zero” e “As Regras da Atração”; em “Glamorama”, Ellis voltaria o foco para os jovens adultos e o consumismo dos anos 90; são todos ótimos, ele começa a perder a mão a partir de “Lunar Park”, de 2005), “Psicopata Americano” foi lançado nos cinemas em 2000 com uma seleção invejável de atores: Christian Bale, Jared Leto, Willem Dafoe, Reese Witherspoon, Chloë Sevigny, Justin Theroux e Bill Sage, entre outros. A direção é de Mary Harron (que antes tinha feito “Um Tiro para Andy Warhol” e depois só fez bombas). A trilha é do John Cale (Velvet Underground).
Pouco depois da cena no restaurante vem um monólogo do personagem principal do filme:
“Meu nome é Patrick Bateman, tenho 27 anos. Gosto de cuidar do meu corpo e faço uma dieta balanceada. De manhã, se o meu rosto estiver um pouco inchado, coloco uma bolsa de gelo enquanto faço abdominais. Em seguida, uso uma loção de limpeza profunda. No banho, uso um gel de limpeza ativado pela água, um esfoliante de mel e amêndoas e, no rosto, um gel esfoliante. Depois aplico uma máscara de ervas e hortelã. Sempre uso uma loção pós-barba com pouco ou nenhum álcool, porque o álcool resseca a pele e faz você parecer mais velho. Depois, um hidratante e um creme antirrugas, seguido por uma loção protetora final”.
E a parte final do monólogo:
“Há uma ideia de Patrick Bateman, algum tipo de abstração, mas não há um verdadeiro eu. Somente uma entidade, algo ilusório. E apesar de eu conseguir esconder o meu olhar frio e você apertar a minha mão e sentir a minha carne contra a sua, (...) eu simplesmente não estou ali”.
Bateman é um jovem que parece ter tudo. Uma noiva linda (mas que não sabe, ou não liga, que ele transa com outras), um cargo em uma firma de fusões e aquisições que lhe dá um salário que banca não apenas os seus inúmeros cosméticos mas também um apartamento nada modesto, almoços & jantares em restaurantes em que a comida é o menor dos protagonistas e a contratação de diversas prostitutas.
Mas, como diz o próprio personagem, “I simply am not there” (”eu simplesmente não estou ali”, ou “eu simplesmente não existo”).
Talvez para preencher esse vazio, Bateman sai às ruas de Nova York, à noite, para cometer crimes violentos e sem muito sentido. Como um serial killer.
Ele mata prostitutas, moradores de rua, colegas de trabalho. Enquanto conversa com as vítimas, pouco antes de empunhar uma faca ou uma motosserra, Bateman é capaz de passar vários minutos exaltando as qualidades da música de Phil Collins ou de Huey Lewis and the News.
Mas, como a música de Phil Collins e de Huey Lewis and the News, o discurso analítico-pop de Bateman é esteticamente oco, friamente calculado e emocionalmente genérico.
O gosto musical de Bateman é reflexo de sua personalidade niilista. Mas não é um niilismo de alguém que não se encaixa socialmente, que está desesperançoso, inconformado com o mundo, como o de “Smells Like Teen Spirit” ou “Shadowplay”, de rappers como 21 Savage ou Kodak Black, de bandas como Nine Inch Nails ou KLF (que em agosto de 1994 queimou 1 milhão de libras propositalmente).
O niilismo de Bateman e de “Psicopata Americano” é puxado por vaidade, ganância, por uma inércia existencial alimentada por esse lado mais histriônico do capitalismo.
O filme está escondido na Netflix. Vi há poucos dias. Se nos anos 80 os jovens yuppies eram atraídos pela grana do mercado financeiro, hoje quem exerce poder e atração semelhantes são as techs. Acho que por isso “Psicopata Americano” não envelheceu.
Mais filmes para ver já
“A Meia-Irmã Feia” (Mubi)
Inspirado livremente em “Cinderela”, este filme conta a história de Elvira, a tal meia-irmã. O segundo marido da mãe tem uma filha linda, e Elvira está longe dos parâmetros de beleza da época. Lembra bastante “Substância”, não só pelo tema mas por jogar na tela a violência explícita de maneira quase surrealista.“Thelma” (Prime Video)
A difícil relação entre filha e pai deu ao norueguês Joachim Trier um Oscar, por “Valor Sentimental”. Em “Thelma”, de 2017, Trier já abordava o tema, mas pelo olhar do terror sobrenatural e do mistério. Por que uma jovem, desde criança, parece ter o poder de fazer pessoas desaparecerem? Na época do lançamento, foi um fracasso. Mas a gente pode ver agora que o filme merece uma nova chance.“Nunca Acaba, Jeff Buckley” (Prime Video)
Finalmente estreou no nosso streaming este excelente doc que traça um retrato íntimo do cantor e guitarrista Jeff Buckley, morto em 1997 quando tinha apenas 30 anos. O filme mostra bem a trajetória da carreira deste músico que deixou apenas um disco, o excepcional “Grace”. (Texto de Sarah Germano.)“A Greve da Seleção França” (Netflix)
Um técnico ególatra, que consultava até a astrologia para definir quais jogadores deveria convocar, e que, no intervalo de um jogo, discutiu com uma das estrelas da equipe, que acabou sendo expulsa da delegação, o que gerou uma greve organizada pelo restante do elenco.
Parece roteiro de um pastelão, mas isso foi a campanha da seleção francesa na Copa de 2010. O documentário é puro entretenimento não apenas para fãs de futebol.
Séries
“Personas” (Netflix)
Excelente minissérie em que agentes do departamento alfandegário do Reino Unido se infiltram em gangues de Londres e Liverpool para desmantelar cartéis de drogas. A trilha é ótima, com Stone Roses, Cocteau Twins e outros (a cena inicial do segundo episódio, com imagens de Afeganistão e Turquia sob a linda “Hallelujah”, dos Happy Mondays, é uma coisa linda).“Kylie” (Netflix)
Boa série em três episódios que conta um pouco da vida e muito da trajetória artística de Kylie MInogue, que começøu como atriz ainda criança e se transformou em fenômeno pop com canções como “I Should Be So Lucky” e “Can’t Get You Out of My Head”. O primeiro ep é o mais fraco. A aproximação com Nick Cave traz alguns dos melhores e mais inusitados momentos da produção.“Gone” (ainda sem data de estreia no Brasil)
Emissoras britânicas como BBC, Channel 4 e ITV costumam fazer séries bem boas, como é o caso desta aqui, que ainda não está disponível nas plataformas acessadas no Brasil (mas tem no Stremio). A mulher do sisudo e rigoroso diretor de uma escola desaparece, e ele é colocado entre os suspeitos. A premissa é simples, mas os personagens e as situações entre eles tiram a série do lugar-comum.
Discos
“Iconoclasts”, de Anna von Hausswolff
Esse disco saiu no final de 20925 e pouca gente deu bola (esta MargeM inclusive). É um espetáculo de alma gótica e carne pop-barroca-industrial-orquestrado. Além de compor, Anna von Hausswolff canta, toca órgão de tubos e cria arranjos para cordas e sopros. Tem ainda as participações de Iggy Pop e Ethel Cain.
Imagina todos esses instrumentos acompanhados por sintetizadores sombrios, que crescem junto com a voz dilacerante de Anna von Hausswolff. Esse disco é uma obra-prima. Para quem gosta de Dead Can Dance, Nick Cave, Bjork.“Ainda Nem Doeu”, Morro Fuji
Boa surpresa este “Ainda Nem Doeu”, disco do quinteto do ABC paulista. É um clima tranquilo, meio romanticamente new wave, meio indie-MPB. “Memorável”, “Maradona”, são os pontos altos do álbum. Deve cair bem para quem gosta de Beach House, Boogarins, Clube da Esquina.“viva”, de Amanda Cadore (lançamento nesta sexta, dia 28 de maio)
Curiosamente, a faixa-título, “viva”, é a mais fraca do disco, com um arranjo de sopros que faz a música soar como algo genérico da nova MPB. O disco cresce quando a voz intimista de Cadore caminha por melodias mais delicadas e dinâmicas, como em “sinestésica”, “biombos” e “passeio”. Gostei bem de “sábado”, “sem filtro” e da vibe latina de “00:00”.“Feliz e Triste ao Mesmo Tempo” - Exclusive os Cabides
“Ontem eu comi uma bicicleta”, canta esta banda que coloca letras divertidas e um tanto surrealistas em cima de melodias roqueiras e ensolaradas. “Bicicleta” e outras seis faixas, como “Gaita em Formato de Trem” e “Gato Chinês” (duas delícias), fazem deste “Feliz e Triste ao Mesmo Tempo” um dos grandes lançamentos do rock brasileiro deste ano.
As imagens desta MargeM são da fotógrafa Janette Beckman, que tem uma retrospectiva com mais de 700 obras no Museu de Cultura Pop de Seattle.
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