"Pareço calma, mas isso não significa que estou calma"

Esta é a MargeM 163. White Lotus. O universo dos influenciadores no Brasil. Podcasts. Uma “primeira viuvez”. E mais.


"Should life all labour be?" (em tradução livre, Deve ser a vida apenas trabalho?), diz Armond, o gerente do luxuoso resort havaiano, no quinto e penúltimo episódio de White Lotus, série da HBO que é um dos pontos altos da televisão no ano.

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O verso foi retirado de The Lotos-eaters, um clássico poema do britânico Lord Tennyson que li pela primeira vez nesta semana, por causa da série.

O poema fala de marinheiros que desembarcam em um lugar misterioso e, ali, encontram nativos que comem a lotos, uma planta alucinógena. Ao comer a lotos, os marinheiros entram em um estado de constante preguiça e desistem de voltar a trabalhar, para passar o tempo relaxando.

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Tem tudo a ver com White Lotus, ambientada em um resort que foi erguido sobre um terreno roubado dos nativos e que recebe hóspedes ricos que passam os dias sendo mimados pelos funcionários, recebendo massagens, tomando drinques à beira da piscina e assistindo aos locais encenarem danças "típicas".

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Capitalismo, desigualdade, exploração do trabalho. São temas que, em mãos pesadas, resultariam em uma série maçante, tosca e com argumento primário –tipo o Twitter do PCO. Mas White Lotus saiu da cabeça de Mike White (Escola de Rock, Enlightened), e ele soube desenvolver o discurso crítico por meio de personagens bem construídos, que disparam diálogos espertos em situações que fogem do lugar comum.

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É comédia, é drama, é thriller, é esquisita e, importante, tem começo, meio e fim bem estruturados. Há uma história que se desenrola suavemente por seis episódios, sem enrolação, sem truques baixos de roteiro.

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Logo no começo, vemos um caixão sendo colocado em um avião. De quem é o corpo? Quem matou? Nos seis episódios, vamos conhecendo a fundo hóspedes e funcionários do resort, em uma trama bem amarrada. 

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Outra coisa ótima da série: a trilha.

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Tem gente que não gostou muito do final (não estou nessa). O Mike White fala sobre as escolhas do último episódio.

Na Folha, a Teté Ribeiro escreve que White Lotus "é uma sátira social tragicômica e irresistível".

"The White Lotus: a série que escancara os privilégios – até pra quem (ainda) não acredita neles", afirma artigo na Glamour.

Guardian: "Nenhum dos convidados é totalmente perverso –White é bom demais para tornar isso tão fácil para nós: a questão toda é a horripilante (sentimento de) identificação. (...) Como eles presumem que seu dinheiro compra tudo (e esses são apenas americanos de classe média alta –longe do que você pode chamar de verdadeiramente ricos). Como eles abusam da 'wokeness' –especialmente Olivia– para castigar os outros em vez de mudar alguma coisa (ou eles próprios)".


Cimafunk e George Clinton - Funk Aspirin
O encontro de um novo astro da música latina com uma das principais cabeças (e coração) da história do funk.
(Se quiser entender melhor o Cimafunk, ouça Me Voy, na qual o cubano faz o casamento entre ritmos caribenhos, funk e pop, tendo como padrinho o afrobeat.)


Como atrair seguidores e influenciar pessoas.

A Gama soltou um especial ótimo sobre influenciadores. 

"Ser influenciador não diz respeito ao número de seguidores, mas ser alguém para quem as marcas olham", afirma este texto.

Para atrair engajamento, é preciso dominar técnicas de comunicação.

E a empresária Fatima Pissarra, sócia de Preta Gil na agência Mynd, diz em entrevista: "A gente faz o que é contratado para fazer, o que é raro. Nosso trabalho é linkar o artista, o influenciador, à marca. Montamos um esquema de venda, de oferta de projetos, não esperamos o telefone tocar. O que a gente fecha para o artista, 98% é proativo. A gente dá muito treinamento, temos contato direto com o Instagram, TikTok, Facebook, Twitter, para que eles cresçam em engajamento e vendam mais. Eles podem recusar job, óbvio, não são obrigados. Nós trabalhamos com um modelo muito inovador, os nossos agenciados são exclusivos, mas por contrato podem sair a qualquer momento. Como somos muito transparentes com o artista, é um lugar em que ele se sente seguro. Acho que isso é a chave do sucesso. São pouquíssimos os casos de pessoas que saíram".


"Pareço calma, mas isso não significa que estou calma. Eu não entro em pânico porque você não pode entrar em pânico nessas situações. Se você é uma pessoa que entra em pânico, provavelmente deveria fazer um trabalho diferente, porque isso lhe causará mais problemas. Mas isso não significa que estou calma por dentro."
Clarissa Ward, repórter da CNN no Afeganistão, em ótimo perfil da Esquire.


"Depois de desligar o telefone com a Bebel, tive que ir para um evento do colégio, e o meu assunto era somente esse, a partida do menino que eu gostava. Eu chorava e parava, às vezes ria quando dizia que tinha me tornado viúva — um tipo de humor descompensado. Meus amigos não deram muita bola, por não o conhecerem, ou talvez por ainda não terem lidado com uma experiência de morte. Aquela mesma era minha primeira experiência do tipo, ninguém da minha idade tinha morrido de forma tão acidental e trágica assim."
Bia Bonduki, "Minha primeira viuvez".


Imagem de Scott Baker que está neste ensaio fotográfico sobre a Patagônia.


A popularidade dos podcasts subiu durante a pandemia, afirma reportagem da Folha. Alguns números e dados:
- cada episódio (semanal) do Nerdcast é ouvido por cerca de 1 milhão de pessoas;
- pesquisa aponta que 56,7 milhões de brasileiros entre 16 e 65 anos escutam podcast (equivalente a 39% dessa população). Na faixa de 16 a 24 anos, sobe para 61%;
- 65,7% dos produtores fazem podcasts apenas por hobby 2,6%;
- 14,6% remuneram a equipe de produção;
- dos 365 milhões de usuários do Spotify, 25% ouvem podcasts;
- a Globoplay lançou 22 podcasts entre janeiro e julho (até o final do ano, pretende soltar mais 25).

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O Spotify lança a ferramenta auto-explicativa Music + Talks. Basicamente: podcasts com música.

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Ainda sobre o material de cultura e pandemia da Folha: a desigualdade desafia avanço do mercado de streaming.


Circuit des Yeux – Dogma
Circuit des Yeux é Haley Fohr, que canta em um tom dramático a respeito de perdas, dúvidas e relações. Música que é fruto e retrato de um mundo em pandemia.


Com obras de 53 artistas e coletivos de diversos países, começa nesta sábado a terceira edição da Frestas - Trienal de Artes, no Sesc Sorocaba. A curadoria é de Beatriz Lemos, Diane Lima e Thiago de Paula Souza, que trabalharam em torno do tema O rio é uma serpente. Mais infos no site.

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O Facebook que acabar com o Zoom como o conhecemos hoje. A rede lança um app de realidade virtual que permite que se faça uma reunião como se os participantes realmente estivessem em sala de conferências. Chama Horizon Workrooms.
A Katie Notopoulos, do BuzzFeed, escreve: "É 'legal', parece muito divertido, aposto que é bom de usar. É uma mudança real? Surpreendente? Não sei. 'Um tipo diferente de experiência de produtividade' não é a primeira coisa que me vem à mente quando penso em 'metaverso'."
Mais: Por dentro da ideia que o Facebook tem de metaverso para o trabalho.

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Um dos problemas da falta de produtividade em relação ao trabalho: má experiência de usuário.

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O Twitter está testando um recurso pelo qual é possível assinar uma newsletter apenas clicando em um botão no perfil de um usuário da rede.

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Artigo na New Yorker explica como as atualizações de design das redes sociais "nos manipulam". "As interfaces não tratam apenas de tecnologia ou coleta de dados; elas mediam a forma como nos relacionamos com os tipos de cultura que consumimos por meio de aplicativos."

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O que ocorreu com a Loading, emissora que usava a estrutura da antiga MTV, tinha grandes ideias, mas ficou no ar por apenas 171 dias.

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André Barcinski: Cinco discos para conhecer o rock do Saara.

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Tem gente vendendo cópias (que haviam sido enviadas para editores e jornalistas) do próximo livro da Sally Rooney por mais de US$ 200.

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Neste sábado (21), às 13h, as escritoras  Lina Meruane e Gabriela Wiener participam de conversa que faz parte do ciclo Agora é Com Elas: Literatura e Sociedade na América Latina, do Instituto Goethe. A mediação é da também escritora Claudia Piñeiro. A transmissão é pelo canal do Goethe-Institut São Paulo no YouTube e pelo site goethe.de/brasil/agoraecomelas.

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O vão do Masp vai ficar realmente livre: a bilheteria será transferida para o novo prédio do museu.

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Até motel e cemitério atraem investimento coletivo via startup.

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Elas se conheceram por um motivo: namoravam o mesmo cara. Ao descobrirem a traição, Bekah King, Abi Roberts e Morgan Tabor se uniram para uma viagem juntas em um ônibus e documentam tudo nas redes sociais.

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Quantas horas são necessárias para dormir bem? Depende da idade.

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As melodias que ouvimos nos metrôs ao redor do mundo. (Spoiler: tem Rio de Janeiro.)