Podcasters são os novos amigos; a newsletter como livro

Esta é a MargeM 157. Os podcasters vão substituir os amigos? A newsletter que será um livro. Os 20 anos do Is This It. E mais.


Se você tem o hábito de ouvir podcasts, provavelmente se sente bem familiar com alguma voz (ou vozes). De tanto ouvir alguém, se sente próximo daquela pessoa, como se ela fosse sua amiga. 

Esse sentimento tornou-se bem comum principalmente durante época de distanciamento social. Tanto que tem gente que afirma: os podcasters estão substituindo os nossos amigos.

Esse comportamento chama-se relações parassociais e não é nada novo. Foi bastante estudado com a popularização da TV: para explicar a sensação de alguém que se acha íntimo de apresentadores de telejornais, de atores etc."

“A sensação de proximidade que temos, via mídia, com pessoas ou personagens que, na verdade, estão muito longe de nós”, diz um pesquisador nesta reportagem da Gama.

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No Guardian, Rachel Aroesti escreve:

"A pandemia viu programas de áudio preencherem uma lacuna em nossas vidas, proporcionando uma companhia que é cada vez mais difícil de distinguir da coisa real".

Continua: "Os podcasts são íntimos, não têm um público na sala para lembrá-lo de seu próprio distanciamento. Eles também podem ser muito longos, o que significa que muitas informações sobre o podcaster podem ser comunicadas. (...) Freqüentemente, são colaborativos, alimentados em parte pela correspondência do ouvinte. (...) É mais provável que você encontre não apenas um podcaster que compartilhe a sua visão e o senso de humor, mas também alguém que compartilhe a realidade material de sua vida. Em outras palavras, alguém que pode realmente ser seu amigo".

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Se quiser se aprofundar no assunto, vale ler este ensaio, que aponta até para outras questões.

Alguns trechos:
"Diferentemente dos televisores e rádios da década de 1950, que ainda eram aparelhos pesados ​​em salas de estar, a mídia parassocial de hoje está em toda parte, disponível sempre que nos sentimos entediados e solitários: no ônibus, no banheiro ou debaixo das cobertas na cama."

"A mídia parassocial contemporânea supera a tensão entre intimidade e escalabilidade ao borrar a fronteira entre o criador e o consumidor de conteúdo. Parece que essas celebridades são capazes de cruzar o palco e realmente nos notar, nos levar de um consumidor passivo de seu conteúdo a um participante ativo."

"Sites de pagamento como Patreon, OnlyFans e Twitch permitem a monetização precisa desses toques de intimidade. (...) Isso é enquadrado como um relacionamento pessoal, não uma troca econômica. Você apoia o criador porque isso é o que os amigos fazem, e o criador responde na linguagem da amizade –respondendo às suas perguntas, dizendo o seu nome no stream, enviando cartões etc."

"A mídia parassocial em si não é o problema, mas a expressão de uma fome profunda de pertencer a estruturas que não podem sustentá-la, percorrendo interações tentadoras, evanescentes e unilaterais que prendem nossa atenção, embora raramente cumpram a promessa de que podemos ser vistos e conhecidos como indivíduos, como amigos."

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Um dos principais podcasters do mundo é Joe Rogan, que há não muito tempo assinou contrato de exclusividade com o Spotify que chega a US$ 100 milhões. Segundo o New York Times, Rogan ficou "muito grande para ser cancelado".


Mykki Blanco - It's Not My Choice (com Blood Orange)
Uma das melhores faixas do excelente disco recente de Mykki Blanco, Broken Hearts and Beauty Sleep. A direção é do próprio Blood Orange.


Primeiro disco dos Strokes, Is This It completa 20 anos. O El País fala sobre a importância do álbum contextualizando com a cena pop-rock da época. Tem entrevistas com gente da Rough Trade e jornalistas.
Se quiser ouvir a minha voz, eu falei com a Isadora Almeida e o Lúcio Ribeiro no Popcast sobre como foi o meu 2001 em Londres e o aparecimento dos Strokes.


Muito tem se discutido sobre como as newsletters são um novo meio para a distribuição de conteúdo (jornalístico, literário, ensaístico etc.), mas esta notícia que chega agora é algo que realmente pode indicar mudanças sensíveis daqui pra frente:
o jornalista Zack O’Malley Greenburg, que já escreveu obras sobre Jay-Z e Michael Jackson, vai publicar seu próximo livro por meio do Substack, que já pagou um adiantamento ao autor.

O livro, We Are All Musicians Now, será publicado na plataforma em partes, uma vez por semana. O acesso será pago: US$ 5 por mês ou US$ 50 por ano.

"Em suma, com o dinheiro do adiantamento no mesmo patamar, prefiro ir para um lugar em que posso ser o meu próprio patrão do que tentar forçá-lo por meio de um modelo de negócio antigo que acho que está quebrado", disse o escritor.

O livro vai tratar das mudanças sofridas pela indústria da música com a popularização da internet. A newsletter/livro começará a ser publicada no final do mês.


Tem uma cidade na China que levou o turismo de Instagram a outro patamar: moradores da região de Xiapu fingem que levam uma vida rural que remete a tempos antigos para que hordas de turistas façam suas fotografias.

Na foto acima, um homem queima palha para simular neblina enquanto uma mulher corre com pássaros; e os turistas tiram as fotos para postar nas redes.


Que história (muito bem contada e editada com a ajuda de fotos e vídeos). Ramon Abbas tem 38 anos e, no Instagram (@hushpuppi; 2 milhões de seguidores), é conhecido como Ray Hushpuppi ou billionaire Gucci master. O nigeriano morava em uma cobertura em Dubai e postava fotos em meio a Ferraris, jogadores de clubes como Chelsea e Man City e vestindo Dior, Fendi e Hermès. Apresentava-se como um empreendedor do mercado imobiliário.

Mas o FBI descobriu que o cara fazia parte de uma rede que dava um golpe chamado Business E-mail Compromise –resumidamente, falsificava o e-mail de um executivo de uma empresa e o enviava a um funcionário do setor financeiro pedindo que uma quantia fosse transferida com urgência. O golpe já gerou prejuízos de mais de US$ 1,8 bilhão.


Temos falado bastante sobre trabalho remoto, burnout e novos modelos de trabalho. Não vi ainda dados a respeito do Brasil, mas uma pesquisa da Microsoft mostra que até 40% dos trabalhadores de 31 países pensam em pedir demissão (porque estão esgotados ou porque, depois de mais de um ano de pandemia, não aguentam mais as velhas regras do trabalho).

E como algumas empresas estão enfrentando essa tendência? Dando uma espécie de folgas coletivas aos funcionários –o que não inclui as férias oficiais.
O LinkedIn e o Bumble deram uma semana de folga a todo mundo (o primeiro em abril, o segundo em junho). O Hootsuite vai fazer o mesmo agora em julho. A farmacêutica Bristol-Myers Squibb deu dois dias de folga aos funcionários de todo o mundo.

Uma das ideias por trás da iniciativa é que, com todo mundo de folga, os trabalhadores não se sentiriam pressionados por gerentes e diretores a "compensar" a folga nos dias imediatamente anteriores ou posteriores.


Coisas legais por aí

Bad Education. Filme baseado em uma história real: como o diretor de uma escola (e uma assistente) criaram um esquema milionário que desviou dinheiro do colégio para custear casas, viagens e hotéis. Com Hugh Jackman e Allison Janey.
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Betty. Série ótima sobre um grupo de garotas que andam de skate em Nova York e a relação com os garotos e adultos.
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It’s a Sin. Como as duas indicações acima, é atração da nova HBO Max. Já falei aqui na MargeM, mas vale repetir: esta minissérie em cinco episódios sobre o início da epidemia de Aids no Reino Unido é das melhores coisas feitas na TV nos últimos anos.


Daniel Avery - Hazel and Gold
Quando a música eletrônica é emocionantemente transcendental.


Uma história sobre como é se ouvir representad@ por letras do mesmo gênero na música pop pela primeira vez.
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Aos 55 anos, Supla se vacina contra Covid-19 na turma dos 42.
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Como o Sun Ra nos ensinou a acreditar no impossível.
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Vários usuários do TikTok reclamavam do limite de um minuto para os vídeos postados na rede. A plataforma agora libera postagens de até três minutos.
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A revista do MIT soltou a lista de 35 inovadores com menos de 35 anos.
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O funk mexe com toda a estrutura do comércio de periferia.” Comerciantes e funkeiros se juntam em parcerias que tornam seguidores em clientes e diminuem o impacto da crise nos bairros mais pobres
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O fim da era das super-editoras de moda.
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Um vídeo que explica bem o que é o live streaming shopping, como ele se tornou um negócio imenso na China e por que está se alastrando pelo mundo.
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Soa como conversa de coach, mas uma alternativa para quebrar o ciclo de expectativa-alcançar um objetivo-sentir um vazio emocional pode ser "construir um propósito para si próprio".
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Mais de cem filmes do cineasta Georges Méliès podem ser vistos em ordem cronológica no YouTube.
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Como os alimentos processados ajudaram a moldar a espécie humana.
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Um extenso, mas ótimo, ensaio sobre como a quantidade enorme de links que não funcionam mais é um problema sério para o conhecimento que colocamos na internet.
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Um quadro caiu da parede –descobriram que era um Rembrandt.
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Por que os Gen Z não gostam de pontuação (principalmente ponto de interrogação). E lá em 2019 a BBC fazia reportagem em que linguistas afirmam que usar ponto final no WhatsApp pode ser grosseiro.