Quando a polícia vai atrás de quem faz música
Nova série da HBO dramatiza um caso real ocorrido em Londres e que envolve um estúdio de rap e grime
A MargeM é uma newsletter que se dedica a cobrir cultura digital e entretenimento desde 2019. Aqui, selecionamos uma série fantástica baseada numa história real e outras que valem a pena serem vistas.
Outros assuntos desta edição #289:
- Por que o xadrez virou assunto pop?
- Um novo e excelente mix para você ouvir (e talvez dançar) em casa
- O perfil de um jornalista-influencer.
Boa leitura!
Que a polícia acha que a música dita periférica está conectada de alguma maneira com atividades criminosas é uma infeliz realidade não apenas da polícia brasileira. No Reino Unido, a situação não é diferente.
Se aqui no Brasil MCs, produtores e organizadores de festas e shows de funk, rap e trap são frequentemente encarados como inimigos pela polícia, na Inglaterra isso ocorre com quem está no meio do grime e do rap.
A gente vê isso muito bem na excelente minissérie “Boom Box: Beats e Betrayal”, que acabou de estrear na HBO. São apenas quatro episódios, e dois deles já estão disponíveis na versão brasileira da plataforma. (Lá fora, a minissérie foi ao ar no final de março.)
“Boom Box” é aquele tipo de série em que é melhor assistir sem saber nada a respeito. Por isso, vou evitar dar muitos detalhes.
A história envolve música e crime e é baseada em um fato que rolou no bairro de Edmonton, no extremo norte de Londres, em 2009.
Edmonton é um bairro pobre, violento e no qual os jovens, na maioria negros, claro, não têm muita perspectiva para melhorar de vida. Muitos recorrem à música, mais especificamente, ao rap e ao grime.
Mas vários jovens começam a se dar mal com a polícia depois que eles vão gravar músicas em um pequeno estúdio que abriu em Edmonton.
Uma coisa bem legal de “Boom Box” é que as cenas são reconstruídas em estúdio e a gente vê as conversas entre os personagens reais e os atores que vão interpretá-los, o que dá uma camada ainda mais dramática e tensa à produção.
“Boom Box” não apenas joga luz sobre uma história que precisa ser conhecida, mas o faz de maneira crítica e sem apelações visuais ou narrativas.
Já viu “Rooster”? Tem o Steve Carell e as ótimas Charly Clive e Danielle Deadwyler. Ele como um pai e escritor, Clive como sua filha e professora enquanto Deadwyler interpreta uma professora de uma faculdade, em uma história divertida que caminha sobre situações tão cômicas quanto dramáticas. É o tipo de série que a gente vê fácil, fácil. Ah, e tem o Michael Stipe cantando a música-tema.
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Depois da boa “Máscaras de Oxigênio”, do ano passado, Johnny Massaro aparece em outra série. Desta vez, em “Emergência Radioativa”, que dramatiza o acidente com o césio-137 que rolou em Goiânia em setembro de 1987. Tá na Netflix e seria melhor se tivesse três ou quatro episódios, em vez de cinco.
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Se você gostou de “Succession”, certamente vai adorar “Dynasty: The Murdochs”, minissérie com a história da família que inspirou a premiada série da HBO. Os Murdochs saíram da Austrália para construir um dos maiores e mais influentes impérios de mídia do planeta. Tudo isso com brigas pelo poder, envolvimento com políticos e escândalos comportamentais. Como muitas das séries documentais atuais, a narrativa, a trilha e até as artes são carregadas demais, mas nada que estrague o entretenimento.
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Por que o xadrez ficou tão pop recentemente?
Tivemos “O Gambito da Rainha” em 2020, série que talvez tenha se beneficiado do confinamento da pandemia para atrair boa atenção. Mas depois já vieram:
o bom documentário “A Rainha do Xadrez”, sobre a trajetória da enxadrista húngara Judit Polgár;
a excelente biografia “Entre Bispos e Reis”, em que o jornalista Uirá Machado vasculha a história do Mequinho;
e, agora, chega o filme “O Rei em Xeque”, doc que vai atrás de um dos mais esquisitos episódios recentes do xadrez: a partida (e as circunstâncias em torno dela) em que o gênio Magnus Carlsen perdeu para Hans Niemann (acusado de ter trapaceado de uma forma nada ortodoxa).
De todos esses, este novo doc é o mais fraquinho. Vale ver apenas pela história em si, mas a coisa toda é meio sensacionalista (o tom narrativo, a trilha dramaática demais, elementos bem típicos de documentários de true crime) e enfraquece o filme.
Quem é DJ e quem gosta de ouvir um Dj tocar sabe que montar um set é uma arte.
Desde o início dos anos 00, séries como Fabric e Fabric Live, do cultuado clube londrino, e os Essentials Mix da Radio 1 produziram joias feitas por gente como Nicolas Jaar, Caribou, Ricardo Villalobos, Caspa & Rusko, James Murphy & Pat Mahoney, entre tantos outros.
Uma outra graaande série de mixes é a alemã DJ-Kicks, que acaba de soltar mais uma compilação de faixas, feita pela peruana Sofia Kourtesis. O mix traz faixas que podem ser colocadas sob o guarda-chuva da house, mas que combinam momentos mais acelerados, outros mais emotivos, alguns mais contemplativos. Aqui e aqui.
Patrick Raden Keefe é o jornalista-influencer no melhor sentido do termo.
O cara é dos melhores repórteres da New Yorker há décadas. Fez o excelente podcast “Wind of Change”. Escreveu “Império da Dor”, livro que começou a revelar o declínio da poderosa família Sackler, que criou um império farmacêutico que inundou os EUA de opióides; escreveu outro livro elogiadíssimo, “Say Nothing”, que inspirou uma das melhores minisséries feitas recentemente; e agora publica um novo livro, sobre um crime ocorrido em Londres.
O New York Times perfilou o cara. Aqui, um trecho:
“Ele desfilou para a J. Crew, apareceu como ele mesmo na série ‘Industry’, da HBO, e é, segundo David Remnick, seu chefe por mais de uma década na New Yorker, um ‘repórter incansável, incansável, e um contador de histórias da mais alta ordem’. Ele é um dos últimos grandes nomes conhecidos do público na área da não ficção, em um momento em que todo o futuro do ofício — a escrita — é uma grande incógnita.”
As imagens desta edição da MargeM são da dupla Inez van Lamsweerde e Vinoodh Matadin, que lança o livro “Can Love Be a Photograph” e estrela expo.
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Sou muito fã do trabalho de Inez & Vinnodh. Além da fotografia, o trabalho em video deles são fantásticos. Pra quem quiser conhecer recomendo procurar no YouTube por “Secret Garden”, melhor uso de Enjoy The Silence do Depeche Mode que eles fizeram pra Dior, “Manifesto” pra Yves Saint Laurent com a deslumbrante Daria Werbowy descendo uma escada ao som de “Invisible” do Fischer Spooner e “Girls On Film” que eles fizeram pra Vogue Paris.