Reclinar ou não reclinar a poltrona do avião?
Algo que parece banal está ganhando ares de guerra cultural; e a excelente série "Prazer Máximo Garantido"
Esta é a MargeM, uma newsletter que desde 2019 analisa e faz curadoria do que é relevante na música, no entretenimento e na cultura digital.
Nesta edição, a #295, você vai encontrar:
- As IAs e o fim da escrita (e da música) comercial;
- A perda da imagem como prova da realidade;
- Um inusitado (e excelente) show no Tiny Desk;
- Uma inusitada (e excelente) série no streaming.
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Será que as IAs vão acabar com o trabalho de jornalistas, escritores e profissionais que trabalham com texto e comunicação? E quanto aos músicos? Estão com os dias contados?
Quem escreve reportagens bem apuradas ou histórias criativas, assim como músicos que conseguem criar canções com melodias imaginativas ou letras personalistas continuarão tendo espaço e chance de ganhar grana com suas produções.
👉 O problema é que no mercado da escrita e da música, muita gente paga as contas produzindo textos ou músicas para empresas, instituições e organizações que não exigem criatividade ou personalismos nessas produções. Ao contrário: querem algo que seja o mais previsível ou genérico. E, aí, as IAs vão reinar.
Este texto fala bem desse assunto:
“Nós, como escritores, superestimamos o quanto as pessoas se importam com a qualidade da escrita fora de espaços específicos como ficção, crítica e jornalismo narrativo. A maior parte das palavras escritas produzidas no mundo não é valorizada pela qualidade, e sim pela existência. Documentos técnicos, textos de produtos, posts de blog otimizados para SEO – são todos textos hipercomercializados com um fim específico: faça esta compra e não aquela. Isso é escrita como produto, e grande parte dessa categoria já está sendo criada por redatores que usam LLMs.
Chatbots destruindo esses ‘produtos’ de escrita são, em termos gerais, semelhantes ao que empresas de IA como a Suno estão fazendo com músicos profissionais que ganhavam a vida criando músicas ou jingles para uso comercial. Eles não faziam, estritamente, arte, mas estavam ao menos próximos dela e conseguiam sobreviver. Muitas vezes parece que um dos principais efeitos econômicos da IA é expulsar ‘criativos de classe média’ do mercado”.
Ainda no tema IA, a revista Gama entrevistou a excelente artista e escritora alemã Hito Steyerl. Ela manja muito de arte, tecnologia e das consequências do encontro entre as duas áreas. Está lançando no Brasil o livro “Meio Quente: As Imagens na Era do Calor”.
À Gama, ela argumenta:
“Quem imaginaria, três anos atrás, que estaríamos vivendo numa ‘memeocracia’? Então, é difícil prever os próximos três anos. Mas acho que a perda da imagem como prova da realidade é um fato; não voltaremos ao status quo tão cedo.”
🤖 O avanço das IAs deve provocar uma mudança radical em como os veículos de mídia distribuem seus conteúdos. Nesta época digital, em que a internet é soberana, durante quase toda a existência da world wide web qualquer site fazia de tudo não apenas para estar em todas as ferramentas de busca, mas também para aparecer lá em cima, nos primeiros resultados de uma pesquisa. Isso está mudando.
Com o Google privilegiando as respostas dadas pela sua AI OVerview em detrimento dos links que aparecem para os usuários, os veículos de mídia devem optar por sair totalmente do índice do Google.
“Para muitos sites, o tráfego vindo do mecanismo de busca era a maior fonte de audiência e, consequentemente, de receita. Agora, porém, um punhado de nomes influentes do ecossistema da mídia digital começou a seguir o caminho oposto, preparando o terreno para algo que antes parecia impensável: retirar seus próprios conteúdos da busca do Google.”
Mark Zuckerberg vai dar uma rasteira em Elon Musk? Porque o Threads, criado pela Meta justamente para ser uma alternativa ao X (como o Twitter passou a ser chamado depois de ter sido comprado por Musk), ultrapassou os 500 milhões de usuários ativos mensais. Além da popularidade, o Threads está cada vez mais parecido com o Reddit.
Reclinar ou não reclinar?
✈️ “Em 2014, quando (o site) FiveThirtyEight perguntou a cerca de mil viajantes o que achavam de reclinar os assentos (em um avião), 41% deles disseram que reclinar era rude. Esse número parece ter aumentado: em 2022, Eric Jones, um professor de matemática que escreve sobre estatísticas de viagens no site The Vacationer, conduziu uma pesquisa semelhante e descobriu que 77% dos entrevistados se opunham a reclinar o assento.”
Algo que parece óbvio (reclinar um assento reclinável) virou um dilema ético para muita gente. Ganha quase o contorno de uma guerra cultural. Este texto trata bem dessa questão, e ouve a opinião de professores de filosofia.
A onda de fazer pão em casa. O desejo de fazer um curso de marcenaria. Aprender a mexer com cerâmica. Tudo isso pode ser, além de um escapismo nostálgico, uma reação contra o automatismo que vem inundando a sociedade contemporânea.
O texto às vezes é bem acadêmico, mas muito bem argumentado. E o autor avisa: às vezes essa valorização de trabalhos manuais e coisas do tipo idealiza um passado que nunca existiu e descamba para discursos nacionalistas e reacionários.
🎸 Ao lado do guitarrista Jeff Parker, da baixista Anna Butterss, do saxofonista Josh Johnson e do baterista Deantoni Parks, Flea (dos Chili Peppers) foi ao Tiny Desk tocar três faixas de seu projeto solo. Um espetáculo.
📺 Não esperava muito de “Prazer Máximo Garantido”, série da Apple TV em que uma mãe que batalha pela guarda da filha com o ex-marido passa a ser chantageada por bandidos que espancam o cam boy com quem ela se relacionava, mas vi os nove (são dez no total) primeiros episódios em duas sentadas.
Uma mãe divorciada que paga para flertar com um garoto de programa na internet? Essa situação, se não for bem desenvolvida, pode levar ao ridículo ou, pior, ao moralismo. Não é o caso em “Prazer Máximo Garantido”. A personagem é tratada com o devido respeito. E sem condescendência.
A série combina suspense, humor na medida certa, subtramas bem costuradas e um empolgante ritmo de thriller.
As imagens desta MargeM são de Ming Smith, a primeira mulher negra a ter fotografias incorporadas ao acervo do MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York). O festival de Arles está com uma retrospectiva dela.
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