"Somos o Ozempic da indústria da música"
O CEO de uma ferramenta de criação de canções por meio de IA diz que "todo mundo está usando, mas ninguém fala sobre isso". Será?
Esta é a edição #290 da MargeM, uma newsletter que faz curadoria e analisa a cultura digital e o entretenimento.
A MargeM também se desdobra em outros meios. No Spotify, com playlists quentinhas.
No Instagram, com posts que abordam a aproximação de artistas da música com agências de influenciadores e dão dicas semanais de livros, filmes, séries e discos.
Nesta edição:
- como a música (e os músicos) estão lidando com a IA
- quantas newsletters são realmente escritas por humanos
- uma série, dois discos e uma música que valem a sua atenção
e ++++.
Obrigado pela leitura.
“Somos o Ozempic da indústria da música.”
O autor da frase acima é Mikey Shulman, CEO da Suno, startup que cria músicas por meio de IA e foi tema de reportagem da Forbes americana.
Tudo bem que para ele é vantajoso gargantear esse tipo de coisa, mas não dá para fechar os olhos para os efeitos que a Suno está causando. Cerca de 7 milhões de músicas são feitas na ferramenta a cada dia.
A matéria traz umas falas bestas do CEO (“A tecnologia finalmente permite que bilhões de pessoas sejam criativas, que colham os frutos do seu trabalho, que sintam realização de uma forma diferente”), mas tem um trecho que ressoa:
“Apesar da indignação, alguns produtores musicais e compositores profissionais estão a bordo, usando o programa como uma espécie de máquina de demos, onde colam letras pré-escritas no software para gerar diferentes ideias para uma faixa antes de refiná-la em um editor de áudio. Mas estão fazendo isso discretamente. ‘Nos tornamos o Ozempic da indústria musical. É como se todo mundo estivesse usando e ninguém quisesse falar sobre isso’.”
Tem músicos que não fazem mais questão de esconder que estão usando IA. Alguns, até exaltam a ferramenta (será que estão ganhando algum “incentivo” para isso? 🤔).
O Diplo, por exemplo, é um deles. Há alguns dias, disse: “Você não vai vencer, não há como lutar contra a IA. (...) Ou você se adapta, ou vai virar motorista de Uber”.
Outra que está se aproximando da IA é a dupla de house/electro Alan Braxe e Fred Falke: “No início, não entendi. Depois, visitei o estúdio de um amigo. A forma como ele usava a inteligência artificial me abriu os olhos”.
Mas ainda há uma resistência forte. Billie Eilish, Robert Smith, Nicki Minaj e mais de 200 artistas assinaram uma carta contra a IA na música.
+ sobre música e IA: A Suno deve fechar uma captação de recursos que poderia avaliá-la em mais de US$ 5 bilhões.
Quantas newsletters são realmente escritas por humanos?
A partir dessa pergunta, a jornalista Taylor Lorenz usou uma ferramenta de detecção de textos de IA para checar o quanto essa tecnologia está sendo usada. O resultado está neste artigo (fechado por paywall).
A base de estudos foram os dez mais recentes posts das 25 maiores newsletters de cada categoria (cultura, tech, saúde etc.) do Substack.
Como o post está fechado para assinantes, então dou aqui apenas alguns dados que ela colheu.
Um: Cerca de um terço dos posts foram feitos total ou parcialmente por IA.
Dois: As categorias em que a IA foi mais detectada: tecnologia, saúde e filosofia. E as categorias em que a IA menos apareceu: música, comida e esporte.
(Vale lembrar que os leitores não foram informados de que aquilo que leram foi escrito por uma máquina.)
+ sobre IA e internet: Pesquisadores descobriram que um terço dos sites criados desde 2022 foram gerados por inteligência artificial.
+ sobre IA e podcast: “Nos últimos nove dias, aproximadamente 10.871 novos feeds de podcast foram criados; cerca de 4.243, ou 39%, podem ter sido gerados por inteligência artificial, de acordo com o Podcast Index, uma plataforma de código aberto que monitora o ecossistema”.
+ sobre IA e a indústria dos livros: Cinco editoras e o escritor Scott Turow entraram com um processo contra a Meta e Mark Zuckerberg, sob a alegação que a companhia usou milhões de livros e artigos para treinar IA.
A literatura pop na era dos influenciadores.
A partir de quatro livros bem recentes, este esperto artigo tenta entender como os influencers estão sendo representados na ficção.
São obras em que os personagens não estão propriamente nadando na fama, mas que essa busca pelos holofotes leva a uma rotina de exaustão mental, em que o trabalho é repetitivo e desgastante. E esse esgotamento é um elemento central na história.
O que rolou com a “Vanity Fair” e a Tina Brown nos anos 80 está rolando neste 2026 com o “Wall Street Journal” e Emma Tucker.
Em 1984, pouco depois de ter decidido ressuscitar a “VF”, Si Newhouse, que comandava a Condé Nast, chamou a editora inglesa Tina Brown para dar uma nova cara à revista. Foi o que ela fez. E colocou nas páginas da nova “VF” histórias saborosas sobre celebridades, política e internacional, feitas por repórteres, escritores e fotógrafos cheios de boas ideias.
O “WSJ” está seguindo receita parecida. Contratou a inglesa Emma Tucker em 2023 para reformular a publicação. E, veja só, a “VF” sentiu os ventos da mudança no jornal e soltou esta matéria: “A editora de origem britânica injetou ambição e energia no principal jornal de negócios dos EUA. (...) Em pouco mais de um ano, a jornalista de 57 anos trouxe cor, voz e um ritmo renovado ao veículo.”
Não sou um especialista na obra do Lourenço Mutarelli, mas do pouco que consegui ver e ler dele, sei que é um cara que tem coisas interessantes a dizer.
Tipo o que ele fala para Yuri Moraes, em uma conversa marcada pelo tema da morte (Mutarelli passou por duas paradas cardíacas).
“A gente sabe que vai morrer, mas não acredita.” E: “O pior não é morrer. É descobrir que você está morrendo.”
Série + discos + música
“Territórios - Sob o domínio do Crime” - A Globo está numa boa fase em documentários. Depois “Vale o Escrito” (sobre o jogo do bicho) e “O Testamento: O Segredo de Anita Harley” (a briga pela herança da comandante das Pernambucanas), chega esta série em quatro episódios que busca entender como as facções (CV e PCC) cresceram em capitais como Rio e São Paulo.
O primeiro episódio traz imagens impressionantes feitas por cinegrafistas que acompanharam policiais em uma operação no Complexo do Alemão e na Penha em outubro de 2025. Foi a ação mais letal da polícia fluminense, com 121 mortos. Os três episódios seguintes se dedicam a investigar os armamentos, a atuação nos presídios e a expansão dessas facções. Alguns entrevistados falam apenas obviedades, mas o trabalho jornalístico do doc é o que vale aqui. ★★★½☆
“Superbloom”, Jessie Ware - Se tem muita gente por aí fazendo pop com pegada disco, não se deixe enganar: Jessie Ware estava ali antes de todo mundo. Esse é o clima deste seu sexto álbum, em que ela tem o auxílio de produtores como James Ford (Beth Ditto; Florence and the Machine) e Stuart Price (Madonna; Pet Shop Boys). Dois dos destaques do disco: “Don’t You Know Who I Am?” e “Automatic”. ★★★☆☆
“Gíria” - RHR - São cinco as faixas que formam este EP do produtor e DJ Roniere Santos, nascido em Diadema (SP). Inventivo, RHR vai do beats quebrados e enfumaçados (“Ciclonada”) ao funk lascivo (“Syrinx”), ao bass com tintas latinas (“Inna Combination"). ★★★½☆
“The Call”, Broken Social Scene - Depois de quase dez anos, esta banda-combo canadense volta a lançar disco (“Remember the Humans”, em 8 de maio). Esta faixa é uma beleza cheia de synths, percussão, sopro e vocais, tudo muito bem amarrado. Música alegre, solar e empolgante. ★★★★☆
As imagens desta MargeM são do Peckham 24, um projeto sem fins lucrativos que organiza uma expo de fotos contemporâneas em Londres. A próxima edição será realizada entre 15 e 16 de maio.
→ O site Popload traz um ótimo texto sobre as várias e pulsantes cenas de música da cidade de São Paulo.
→ Os 100 melhores solos de guitarra da história. (Lista curiosa, lembrando que é solo de guitarra, e não riffs.)
→ Documentários sobre: o Punk do ABC paulista; a criação de um álbum de rap que teve mentoria de Edi Rock e Gaspar (do Z’ África Brasil); Jocy Oliveira (pioneira da música experimental brasileira) e a relação do funk carioca com as periferias são alguns dos destaques da programação nacional do festival In-Edit Brasil, que será realizado entre 17 e 28 de junho em diversas salas de São Paulo.
→ Protestos e renúncias ofuscam o início da 61ª Bienal de Veneza.
→ “Brasil é o país da comédia, fazer terror não é fácil”. Entrevista com a escritora Ana Paula Maia, que é finalista do International Booker Prize.
→ O Spotify está enviando verificações para alguns artistas, para checar se eles são realmente humanos.
→ Uma boa entrevista com o cartunista Guy Richards Smit, em que ele fala sobre a necessidade de se reinventar, como lidar com rejeições no trabalho e a importância de se lembrar de aproveitar o processo.
→ Old, but gold: Como parar de comprar coisas que você não precisa.
→ A autobiografia do número Pi.
→ City of Sounds. (Uma espécie de mapa sonoro interativo, que “ faz parte do The Neighborhoods, um work in progress que pretende documentar todos os bairros da cidade de Nova York por meio de fotografia, gravações nas ruas e textos”.)
→ Todos os eclipses solares. (“Explore como foram os eclipses solares passados e futuros em um mapa interativo.”)
→ Amazônia. (Projeto da Embratur para impulsionar o turismo na região. Uma das ferramentas interativas do site faz uma brincadeira com o leito dos rios da Amazônia e a tipografia do nome dos estados.)








ótima edição, como sempre!
No YouTube chega a dar raiva o tanto de duetos fakes criados por IA. E li no Diogo Cortiz que esses detectores de IA em texto não são confiáveis. Veem IA onde não há, em textos criados antes dela existir.