Uma série e quatro (ou melhor, três) discos que valem a pena
"Furious" é a série; os discos de Charli XCX, Lido Pimienta e Agazero estão ótimos; já o dos Strokes...
Esta é a MargeM, uma newsletter que, desde 2019, analisa e faz curadoria do que é relevante na música, no entretenimento e na cultura digital.
Nesta edição, a #296, você vai encontrar:
- A boa (e tensa) série (Furious);
- Três discos bem bons (e o dos Strokes);
- O álbum do James Ford feito no hospital;
- As fotos da Sophie Rivera.
E acompanhe a MargeM no Instagram e no Spotify. Boa leitura!
Das coisas boas do streaming: a nova série “Furious”, que está no cardápio da Disney+.
É a velha premissa de um gato caçando um rato, de um policial atrás de um bandido. Aqui, a policial é Alice Black, do FBI, que investiga uma série de assassinatos que, ela descobre logo, são cometidos por uma mulher que tem uma tatuagem de uma rosa.
Alice Black é uma personagem curiosa: deixou a polícia de Nova York e foi para a federal depois de ter sido espancada pelo marido, também policial. Ela ainda guarda traumas dessa relação.
E a criminosa é Catherine, uma jovem adulta que mata um milionário herdeiro e, depois, um advogado. Dos oito episódios da série, três já estão disponíveis e, por eles, ficamos sabendo que Catherine é órfã e foi vítima de abusos.
São temas pesados, e “Furious” não trata deles eufemisticamente: há momentos bem angustiantes. É uma série que não alivia, e é legal que as plataformas de streaming produzam coisas assim atualmente.
Alguns discos que passaram pela MargeM nesta semana.
“Reality Awaits” - The Strokes (ouça aqui)
Você é uma pessoa ocupada e, nas poucas horas que tem para se divertir, escolhe muito bem como vai gastar o seu valiosíssimo tempo: se é com músicas, livros, vídeos, séries, filmes, redes sociais, futebol, karaokê ou tentando farmar aura.
É com dor no coração que esta MargeM afirma: o novo disco desta banda que ajudou a redefinir o rock no século 21 é uma perda de tempo. Desfocado e pretensiosamente irônico, “Reality Awaits” é uma massaroca de referências do rock dos anos 80/início dos 90. Não à toa, a capa do disco é uma imagem da série de caubóis do Richard Prince (aquele da propaganda de Marlboro). Uma das faixas, “Psycho Shit”, parece uma música esquecida do Europe (aquela banda do hit “The Final Countdown”).
Das nove músicas do disco, apenas três são decentes: “Dine N’Dash” (a “mais Strokes” do álbum), “Going Shopping” e “Tyrants of the Mellow Moon”.“Music, Fashion, Film” - Charli XCX (ouça aqui)
Se a imagem do Richard Prince na capa do disco dos Strokes nos dá uma pista do que está por vir, a capa deste álbum da Charli XCX também é significativa. Estão ali John Cale, Marc Jacobs e Martin Scorsese, três figuras respeitabilíssimas em suas áreas (music, fashion, film). Se o anterior, “Brat”, era um testamento do que era a música e a vida jovem em 2024 (difusa, extremamente online, histriônica como as redes sociais, abusada), este agora é mais maduro, analógico e nostálgico. “Brat” definiu um momento; “Music, Fashion, Film” é menos urgente e mais amplo.
Algumas faixas são um espetáculo. Como “SS26”, meio anos 90, quase como um encontro do Garbage com Best Coast. “Card Declined” é sonoramente suja e com um vocal quase falado na primeira parte, antes de mudar para um pop limpo e divertido. “Magic Metal Montana” era o tipo de coisa que eu queria que estivesse no novo dos Strokes. “Wink Wink” é deliciosamente debochada. “Yeah” é tão rock e enérgica quanto Le Tigre.“Caribenya” - Lido Pimienta (ouça aqui)
O Bad Bunny virou superstar, o reggaeton toca em clubes do mundo todo, a Karol G passou a fechar os palcos principais de festivais como Coachella. Os sinais estão aí: a música latina está em alta. É nesse cenário que surge “Caribenya”, de Lido Pimienta. Mas esta colombiana-canadense não está se aproveitando de uma onda: ela já está na música há um bom tempo, e “Caribenya” é seu sexto disco.
Mas não espere as melodias contagiantes ou ritmos acelerados: Pimienta propõe aqui uma aproximação de sons como cumbia e bullerengue com arranjos mais etéreos e orquestrados. Surpreendente e bonito.Agazero - “Dissidente” (ouça aqui)
O não respeito a gêneros é uma das características que definem a música pop contemporânea. Olhe para qualquer lado: Anitta, Charli XCX, Ludmilla, Blood Orange, Mochakk, Bad Bunny, FKA Twigs, Amaarae, Dorian Electra. A gente pode ficar aqui até o fim do ano citando nome atrás de nome de gente que faz música sem respeitar fronteiras ou contornos estéticos.
Um desses nomes é o produtor Eric Alves, nascido em São Gonçalo (RJ), que não apenas não se prende a um único gênero musical como não se prende a um nome: também já assinou músicas como DJ LHC e ICQ Baby.
Mas é como Agazero que ele lança as coisas mais interessantes. Acaba de soltar “Dissidente”, um disco com seis faixas impossíveis de serem classificadas, se é que isso é ainda seja importante hoje em dia. O próprio nome das músicas (“Of Sonic Agnosia”, “Through Sterile Appropriation”, “Into Hermetic Isolation”) indica o que encontraremos: uma bem-vinda esquisitice embrulhada em um clima de experimentação.
Entre beats, ruídos e intervenções vocais, dá para encontrar funk (ou pós-funk), techno, electro, jungle, dubstep. Mas o gênero musical é o que menos vale aqui.
Um dos pontos altos é “Amid Backstage Hostility”, que tem a participação de Yandrel, um produtor de São Paulo que lançou, em 2025, o excelente “Contratempo”, disco que parte do funk para chegar a destinos imprevisíveis.
“Dissidente” é um disco eletrônico que se apoia totalmente na tecnologia de equipamentos e softwares de agora. Trata-se, assim, de um trabalho que só poderia ter saído neste 2026. E, até por isso, é um disco frenético, caoticamente controlado, hiperativo, retrofuturista. Se você gosta de música imprevisível, que não olha para trás, como Aphex Twin, não deixe de ouvir. Se quiser saber mais sobre o cara, dá uma olhada neste vídeo-entrevista caprichado.
“Em abril do ano passado, enquanto eu fazia tratamento contra uma leucemia mieloide aguda no hospital St. Bart’s, comecei a fazer música na enfermaria, entre uma sessão de quimioterapia e outra, principalmente como uma forma de manter o ânimo e processar tudo o que estava vivendo.”
Este acima é James Ford, que já fez parte do Simian Mobile Disco e nos últimos anos produziu excelentes discos, como “Romance” (Fontaines DC), “More” (Pulp), “What’s Your Pleasure?” (Jesse Ware) e “AM” (Arctic Monkeys), entre muitos outros.
Bem, após a barra que passou internado, ele lança (sob o nome James Ellis Ford) em agosto o disco “Lost In Another World”. Já dá para ouvir o primeiro single do álbum, uma beleza suave e aconchegante.
Ele fala nesta entrevista aqui sobre o tempo que passou no hospital e como foi compor canções no estado em que estava:
“Depois de cada ciclo de quimioterapia, você passa por um período chamado neutropenia, em que seu sistema imunológico praticamente deixa de funcionar. É preciso ficar isolado, como o ‘garoto da bolha’, protegido de qualquer germe ou infecção. Era quase como cumprir uma pena de prisão. Você fica sozinho num quarto estranho, todo branco, que lembra um pouco a sala do final de ‘2001: Uma Odisseia no Espaço’, uma versão tipo ‘vale da estranheza’ da vida que você costumava conhecer.”
As imagens desta MargeM são de “Double Exposure”, mostra dedicada à fotógrafa Sophie Rivera (1938-2021), em cartaz no Museo Del Barrio, em Nova York.
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