Vivemos num mundo tecno-cultural moldado pela Disney
O conglomerado ajudou a criar um modelo que orienta as nossas emoções, o que consumimos e como nos comportamos
Esta é a MargeM, uma newsletter criada em 2019 que analisa e faz curadoria do que de mais interessante aparece na cultura digital e no entretenimento.
Neste #291, você vai encontrar:
- A “disneyficação” do mundo em que vivemos;
- Como o rapper Drake está usando a lógica de produção dos criadores de conteúdo;
- A briga dos indies com os grandões na indústria musical e ++.
Boa leitura!
Que os algoritmos ditam muito do que a gente ouve, vê e lê a gente já sabe. Mas será que realmente temos ideia do quanto a nossa rotina, a nossa vida, está desenhada e condicionada pelas sugestões que recebemos das máquinas?
🤖 Levar uma vida quase toda “programada” por apps, em que os nossos movimentos são bem previsíveis, mexeu com a cabeça de um engenheiro de software chamado Max Hawkins. Tanto que ele decidiu criar seu próprio algoritmo, para ajudá-lo a evitar seguir os padrões sugeridos pelos algoritmos presentes nos apps que usa.
Este é um dos mais interessantes artigos que li que tenta entender como a proliferação de apps e algoritmos molda o nosso cotidiano e o quanto estamos realmente decidindo os caminhos que seguimos. (Está sob paywall, mas pode ser driblado.)
Um trecho:
“Ele decidiu aplicar o mesmo processo a outras decisões da sua vida, criando meia dúzia de aplicativos para randomizar os restaurantes onde comia, as músicas que ouvia e até as tatuagens que fazia. (Hoje ele tem duas figuras geométricas em forma de bonecos-palito tatuadas permanentemente no peito.) Em pouco tempo, Max passou a terceirizar o máximo possível de decisões para seu exército de algoritmos de aleatorização. ‘Ao escolher aleatoriamente’, disse ele, ‘encontrei liberdade’. Mas, à medida que fui conhecendo os experimentos de Max, não tive tanta certeza disso. Entregar as decisões da própria vida a um algoritmo de computador era realmente uma fonte de liberdade — ou apenas um outro tipo de armadilha?”.
Esse tema tem a ver com um recém-publicado livro, “Disneyland and the Rise of Automation: How Technology Created the Happiest Place on Earth” (traduzindo: Disneylândia e a Ascensão da Automação: Como a Tecnologia Criou o Lugar Mais Feliz da Terra), de Roland Betancourt, que acaba de sair nos EUA.
👉 O livro argumenta, basicamente, que a Disney e seus parques temáticos ajudaram a criar este “modelo cultural” que temos hoje, baseado na tecnologia, nas experiências confortáveis e sem atritos, que evitam que a gente lide com situações inesperadas e provocadoras. Um modelo que orienta as nossas emoções, o que consumimos e como nos comportamos.
Este artigo analisa muito bem a obra. Um trecho:
“Vivemos em um mundo ‘Disneyficado’: nosso ato de fumar é automatizado pelo vape, nossa vontade de jogar é automatizada pelos apps de apostas, nosso sexo é automatizado pelo Tinder. Nem mesmo nossos vícios, no mundo que a Disney criou, são realmente nossos. E nosso gosto é automatizado pelo algoritmo. Gostou da Branca de Neve? Você vai amar Elsa! A IA vai incorporar a automação de forma ainda mais profunda ao prazer”.
🎵 Nesta época em que tudo é conteúdo (não é mesmo, Neymar?), profissionais do esporte, da política, do cinema, da música, enfim, de qualquer área, transformam o trabalho e a rotina em material para alimentar engajamento nas redes sociais e ganhar clientes, fãs, seguidores, patrocinadores.
Na música, Drake é um caso exemplar. É o primeiro grande artista da música pop a agir totalmente pela lógica de um criador de conteúdo.
O rapper canadense acaba de lançar três discos: “Iceman”, “Maid of Honour” e “Habibti”. De novo: ele lançou não um, mas três discos simultaneamente, com um total de 43 faixas.
🗣️ A estratégia de produção/divulgação dos álbuns começou a ficar bem clara em julho de 2025, quando ele passou a fazer livestreams. Foram quatro até o lançamento real dos discos. O rapper anunciava o dia e horário desses livestreams por meio de posts no Instagram.
Em abril, Drake colocou numa praça de Toronto, sem aviso prévio, uma enorme escultura de gelo. E incentivou que os fãs fossem ao local para quebrar a peça e encontrar uma pasta, que trazia a data de lançamento do disco. A ação é quase um flash mob, algo que poderia perfeitamente ter sido feito por um youtuber como Mr Beast, talvez o mais popular creator do mundo.
💽 E aí veio este maio, com os três discos chegando às plataformas. Colocar na rua um trio de álbuns com 43 músicas no total é uma tática conhecida como “flood the zone”, que é bastante usada por marqueteiros tanto do entretenimento quanto da política.
“Flood the zone”, ou “preencher o espaço”, significa despejar um monte de conteúdo, ou de factoides, ao mesmo tempo na internet para que a conversa do público fique presa àquilo. Ao lançar três discos simultaneamente, Drake mobiliza (e monopoliza) a atenção do público do pop mainstream.
🤔 Fica difícil fugir do “assunto Drake”: ao abrir uma rede social, damos de cara com um monte de gente falando dele; ao entrar em uma plataforma de streaming, as músicas dele aparecem nas recomendações; as playlists são inundadas por faixas desses três discos.
Criar e promover uma comunidade em torno de si, motivar o engajamento do público, conquistar a atenção das pessoas em meio a um oceano de músicas, filmes, séries, livros, podcasts, newsletters e conteúdos em redes sociais. Essa é a receita que todo criador de conteúdo tenta seguir. E é a receita que Drake está colocando em prática.
Além disso, tem interesses financeiros por trás. Diversas iniciativas online de Drake e de pessoas próximas a ele foram feitas em uma plataforma de streaming que é de propriedade de um grande site de apostas, do qual Drake é embaixador.
Mais sobre o tema:
- “Como os lançamentos de álbuns do Drake evoluíram: dos singles às esculturas de gelo”;
- “Drake explica estratégia de lançamentos em entrevista; rapper aposta em transmissões ao vivo com narrativa ficcional e participação direta de fãs para fugir do lançamento tradicional”.
🎸 A música independente, com toda a estética que carrega, continua culturalmente influente. Mas será que os indies vão sobreviver neste mundo em que o pop está ancorado quase exclusivamente nas plataformas de streaming? é ancorado quase que exclusivamente nas plataformas de streaming?
Phil Waldorf, co-proprietário do Secretly Group (grupo que comanda selos como Dead Oceans, Secretly Canadian e Jagjaguwar), diz que as casas independentes estão tendo que competir no mesmo terreno das grandes gravadoras. E a agressividade destas últimas está aumentando.
“‘Nossos números (de receita e de streaming) estão crescendo, mas o investimento que você faz nos artistas está subindo mais rápido do que o crescimento da receita’, diz ele. Em um mercado competitivo, os artistas conseguem exigir somas cada vez maiores pelos adiantamentos que recebem para fazer discos. Ao oferecer grandes adiantamentos para novos artistas, ‘parece que as grandes gravadoras estão tentando tirar artistas do jogo e abocanhar tudo da concorrência a praticamente qualquer custo, como se estivessem comprando o maior número possível de bilhetes de loteria’”, afirma Waldorf.
As imagens desta MargeM foram selecionadas para o Emerging Photographer Award, que foi criado para incentivar o desenvolvimento de fotógrafos emergentes.
→ Produtor do Primavera SP diz que o evento vai rolar por pelo menos mais alguns anos: “A ideia é que o Primavera Sound em São Paulo seja construído a longo prazo”.
→ Um perfil de Mario Caldato Jr., que produziu Beastie Boys e é parceiro de Seu Jorge, Marcelo D2 e Marisa Monte.
→ Como os sound systems jamaicanos criaram a lógica da pista de dança moderna e abriram caminho para DJs.
→ As 30 melhores bandas de punk de todos os tempos.
→ Compositora brasileira que uniu o eletrônico à música erudita, Jocy de Oliveira ganha documentário em sua homenagem e estreia nova ópera.
→ O James Murdoch (filho do Rupert; aliás, já viu a série “Dynasty: The Murdochs”? Falamos um pouco a respeito aqui) comprou a revista “New York” e boa parte do site Vox.
→ A indústria de podcasts gera US$ 9,2 bilhões por ano (e boa parte dessa grana é movimentada pelos programas em vídeo).
→ Além de casas e apartamentos, o Airbnb vai alugar carros e oferecer serviço de delivery.
→ “O desespero do Instagram para você postar mais.”
→ Crise na “Vanity Fair”? E tem isso aqui: “A Vanity Fair, uma fonte improvável de jornalismo esportivo, lançou uma série de perfis esportivos virais em busca de novos públicos”.







