🎵 O doc da Courtney Love e a dificuldade em fazer turnês
Artistas como Dry Cleaning reclamam que custos altos estão impossibilitando a agenda de shows de bandas médias e pequenas
Esta é MargeM #286. Uma newsletter que acompanha a cultura digital e o entretenimento desde 2019. Acompanha a gente também no Instagram e no Spotify.
Nesta edição, você vai encontrará:
- a dificuldade que as bandas estão tendo parea marcar turnês;
- o novo documentário sobre a Courtney Love;
- a era da mídia dessocializada e mais.
Boa leitura!
🎵 🚌 Não está fácil nem para uma banda como a inglesa Dry Cleaning, que tem quase dez anos de vida, três discos nas costas e já tocou em festivais como C6 Fest (em São Paulo), Primavera Sound (Los Angeles), Meltdown (Londres, com curadoria da Grace Jones), Roskilde (Dinamarca) e Rock Werchter (Bélgica), entre outros.
O grupo de pós-punk e art-rock liderado pela ótima vocalista Florence Shaw iria fazer uma turnê de 26 datas pelos EUA entre janeiro e este fevereiro, para promover o terceiro disco, “Secret Love”.
Mas os planos tiveram de mudar. O Dry Cleaning cancelou a tour e rearranjou as datas americanas para maio. O motivo? “As forças econômicas cada vez mais hostis que comandam as turnês”.
“É uma situação muito brutal. Definitivamente era muito, muito, muito mais viável (sair em turnê) apenas alguns anos atrás. As coisas ficaram feias. Já nem se trata mais de lucrar (com a turnê). Trata-se simplesmente de conseguir fazer”.
Na matéria da Rolling Stone linkada acima, um executivo de uma empresa que gerencia turnês de artistas como Khruangbin e Lumineers explica:
“Antes de mais nada, temos uma combinação difícil de inflação e estagnação salarial. A disponibilidade de ônibus para turnês, o custo desses ônibus, o combustível para esses ônibus, hospedagem, impostos, despesas gerais de produção, tudo isso apertou a margem. No fim das contas, sair em turnê está mais caro”.
🇧🇷 Aqui no Brasil, “a situação não é diferente, infelizmente”, conta o Fernando Dotta, uma das metades da Balaclava Records, que atua como gravadora, editora, produtora cultural e gerenciamento artístico.
Dotta falou à MargeM:
“São muitos os custos envolvidos em uma turnê e, por diversas vezes, isso tem inviabilizado girar pelo país – ainda mais com a dimensão do Brasil e para a realidade de artistas independentes.
Bons profissionais demandam bons cachês (e com razão), mas muitas vezes não condizentes com o tamanho da produção e o que sobra para o artista; há muitos intermediários no processo (taxas de ticketeiras, porcentagem de agências e produtoras); há uma logística cara de passagens aéreas e despacho de equipamentos; há a falta de patrocínio para festivais e eventos de pequeno e medio porte (a verba está sempre concentrada nos gigantes); além de cada vez menos espaço para artistas iniciantes sem público garantido nos lineups dos festivais, que costumam ir atrás sempre dos mesmos nomes, porque é algo mais garantido ou que desperta nostalgia”.
Se os custos das turnês aumentam, uma alternativa para fechar a conta seria subir também o preço dos ingressos dos shows. Mas aí vem outro problema: os fãs têm grana para bancar isso?
O G1 publicou reportagem que pergunta: “Os shows estão caros demais?”. Ali, um produtor dissecou os motivos que levam a um aumento de preço dos ingressos, principalmente em relação a shows de grandes artistas, que muitos fãs encaram como abusivos:
“Aumento do cachê: artistas não conseguem mais se sustentar com streams e os shows são suas principais fontes de renda;
Shows mais robustos: artistas estão investindo cada vez mais em shows com grandes aparatos de luzes, vídeo, som e efeitos especiais — e claro, fica caro transportar e montar essas estruturas;
Tudo está mais caro: das passagens aéreas ao transporte de carga, salários, hotéis... tudo isso tem custado mais”.
Outro ponto para levar em consideração nesse cenário de artistas indie sofrendo para fazer turnês e ingressos caros: a concorrência com os grandes shows de artistas hiperpopulares, como Taylor Swift e Oasis.
No final do ano passado, escrevi uma reportagem para o Valor (a matéria não está sob paywall) sobre o calendário recheado de shows internacionais no Brasil. Um ponto levantado: o dinheiro dos fãs é finito, e eles têm de escolher quais shows vão ver. E é muito provável que eles escolham assistir a shows dos grandes artistas internacionais em vez de gastar dinheiro com uma apresentação de uma banda média ou pequena.
👉 Lembrando: no final de 2024, a cantora inglesa Kate Nash contou que abriu um perfil no Only Fans pra tentar arrecadar grana para bancar uma turnê.
“A coisa mais transgressora que você pode fazer no mundo é ser uma mulher envelhecendo em público.”
🎸 Quem diz isso é Courtney Love, e ela tem experiência no assunto. Aos 61 anos, a vocalista que fez discos hoje clássicos, como “Live Through This” (1994) e “Celebrity Skin” (1998), ambos com a banda Hole, nunca tentou abraçar o convencionalismo para aplacar as pedradas que recebia, principalmente durante e pós-casamento com Kurt Cobain
Ela é tema do documentário apropriadamente intitulado “Antiheroine”, que foi exibido em Sundance. O Washington Post viu e afirmou:
“A maioria dos documentários sobre retornos no rock costuma incluir imagens de seu personagem voltando ao palco diante de uma plateia adoradora. Mas o que os diretores de ‘Antiheroine’ filmaram em seu longa de 98 minutos é algo menor, muito mais pessoal. (…) Este não é um filme sobre alguém que retorna à fama, mas sobre uma artista que, depois de ter chegado ao fundo do poço, está apenas tentando reencontrar a própria voz e seguir adiante para o próximo capítulo da vida.”
Mais sobre “Antiheroine”:
Hollywood Reporter: “Courtney Love se abre sobre seus altos e baixos e a necessidade de ser ouvida em um documentário que é ao mesmo tempo estridente e íntimo”.
Indiewire: “Courtney Love retorna à festa com um documentário intimista que explora a fama, as drogas e Kurt Cobain”.
E esse povo que não tem vitrola em casa e mesmo assim não para de comprar vinil?
🎚️ 🎛️ 🎚️ Um mix: Bobby Beethoven no Unsound Podcast.
Bobby Beethoven faz um set abrasivo, em que há recortes de vocais, barulhos que vão e voltam. Seus sets já foram chamados de “deconstructed club”. Neste mix, ele parece fazer colagens, como uma em que reúne, por trás de batidas quebradas, uma versão de “Creep”, do Radiohead, com vocais do nosso “brazilian funk” (por volta do minuto 15). Mais pra frente, emenda “Damaged Goods”, do Gang of Four, com “Twist”, do Tones on Tail.
Os Reels do Instagram e a “nova era da mídia dessocializada”.
Bom texto que tenta entender como os algoritmos estão alterando a nossa percepção do que seja a internet e o espaço digital.
“Suspeito que a mudança das grandes plataformas em que as pessoas viam coisas principalmente de propósito, porque queriam vê-las, para as plataformas em que as pessoas veem coisas principalmente porque um algoritmo acha que elas podem interagir com aquilo é um fator subestimado para explicar o quão estranho a internet — e, por consequência, o entretenimento, a mídia e a política — é vivenciada em 2026.”
As imagens desta edição são do húngaro André Kertész (1894 – 1985), um dos pioneiros da fotografia moderna. Ele é tema da biografia “Everything Is Photograph: A Life of André Kertész”, de Patricia Albers.
→ Dono do Washington Post, Jeff Bezos demitiu um terço dos funcionários do jornal. Um dos que perderam o emprego é um repórter que trabalhava ali há 60 anos.
→ “A destruição do Washington Post por Jeff Bezos é um crime plutocrático vergonhoso”.
→ Enquanto isso, a Bloomberg Media ultrapassa a marca de 700 mil assinantes com um aumento de 6% na receita em 2025.
→ Como se precisasse de mais essa evidência: o Grammy 2026 mostra que o k-pop está mais global do que nunca.
→ O Spotify vai começar a vender livros físicos.
→ Entidades processam Big Techs por falta de combate ao discurso de ódio contra público LGBTQIAPN+.
→ “As empresas substituíram trabalhadores em início de carreira por IA. Agora elas estão pagando o preço.”







